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Não tem como “O Agente Secreto” ser melhor do que “Sonhos de Trem”

Não vi “O Agente Secreto”. Nem pretendo ver. E já sei que vão dizer que, por isso, não posso criticar. (Bocejo). O fato é que decidi não gastar 2h30 do meu precioso e escasso tempo com o que considero peça de propaganda, e não cinema. Estou feliz com essa decisão. Além disso, meu filho viu, amigos viram e todos se disseram no mínimo decepcionados e no máximo “que porcaria!”. Por isso achei melhor assistir ao [INSIRA AQUI O ADJETIVO DE ADMIRAÇÃO HIPERBÓLICO DE SUA PREFERÊNCIA] “Sonhos de Trem”, disponível na Netflix. Foi a melhor decisão que tomei e explico por quê.

O título é estranho, né? Também achei. E explicá-lo é complicado, mas tem a ver com fluxo de pensamento, com a modernidade e também com as aspirações do homem comum. Apesar do título algo hermético, o filme é uma das melhores coisas que o cinema produziu nos últimos anos. Se bem que a concorrência não é lá essas coisas, eu sei. Mas, vai por mim: é daqueles filmes para se ver e rever. E tresver, sobretudo quando você acha que a sua vida está ruim.

A cruz

Falando assim, parece que se trata de um filme de superação. Mas não é nada disso. “Sonhos de Trem” conta a história de um homem que trabalha como lenhador, que vive seus momentos de dificuldade e felicidade, que se vê meio atordoado com a aparente aleatoriedade da vida, que enfrenta uma perda cuja dor é, para mim, inimaginável, e que segue vivendo. Sem política, sem identitarismo, sem proselitismo.

É um filme sobre a cruz. A cruz invisível, que nos pesa sobre os ombros, e que todos carregamos, às vezes sob o olhar compassivo, mas geralmente sob o escárnio dos outros. É também sobre contemplação e formação da memória. Sobre a evocação da memória. Sobre a inexorável passagem do tempo, o ridículo de tudo que nos parece grandioso no presente (desde uma ponte ferroviária até um passeio no espaço) e o destino que nos aguarda: a morte.

De nada

Se você reparar, é sobre outras coisas igualmente importantes: as pessoas que nos ajudam, as pequenas decisões que tomamos, a inutilidade das preocupações. É sobre a luta que cada um de nós estamos travando e sobre a bagagem que cada um de nós carrega pela vida afora. É sobre o Livro de Jó e o Eclesiastes. E, sem falar em Deus, é um filme sobre Deus.

Por fim, “Sonhos de Trem” é um filme que exalta a normalidade. O extraordinário que existe no ordinário. Aí eu pergunto a você, fã de “O Agente Secreto” ou dos abomináveis “Uma Batalha Atrás da Outra” e “Pecadores”: por acaso esses filmes badalados têm coragem de mergulhar o dedo mindinho nas águas tempestuosas de uma existência normal? Claro que não. Porque é muito mais fácil falar de política e identidade, com personagens de papelão e roteiros de isopor, para uma plateia escrava das ideologias. Não seja assim. Não se permita escravizar. Assista a “Sonhos de Trem”. De nada.

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noticia por : Gazeta do Povo

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