O jornalista Zuenir Ventura passou mais de seis décadas tentando entender o Brasil. Fez isso das redações, das ruas e, sobretudo, por meio dos personagens que encontrou pelo caminho. Jornalista e escritor, morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, depois de uma trajetória que atravessou alguns dos períodos mais conturbados da história brasileira.
Um de seus traços mais marcantes foi transformar acontecimentos do presente em documentos capazes de permanecer relevantes após o fim do noticiário do dia. Foi assim com 1968, ano que se tornou o tema de seu livro mais conhecido. Foi assim também com a violência urbana do Rio de Janeiro e com a história de Chico Mendes.
Nascido em Além Paraíba (MG), em 1931, Zuenir chegou ao jornalismo em 1956, como arquivista da Tribuna da Imprensa. A partir daí, passou por alguns dos principais veículos da imprensa brasileira, entre eles Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, VEJA, IstoÉ e Jornal do Brasil. Também foi professor de jornalismo e ajudou a formar profissionais de diferentes gerações.
Em 1968, porém, a própria história entrou em sua vida. Zuenir e sua mulher, a jornalista Mary Akiersztejn, foram presos. Ele permaneceu cerca de três meses no Dops do Rio de Janeiro e dividiu parte do período na prisão com os escritores Ziraldo e Hélio Pellegrino.
Vinte anos depois, transformou aquela época em livro. Publicado vinte anos depois da prisão, “1968 – O Ano que Não Terminou” reconstituiu o ambiente político e cultural de um dos anos mais marcantes da história brasileira. A obra tornou-se uma referência sobre o período, vendeu centenas de milhares de exemplares e posteriormente inspirou a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.
Obra de Zuenir Ventura não ficou restrita à memória da ditadura
A obra de Zuenir não ficou restrita à memória da ditadura. Em 1989, foi ao Acre acompanhar a realidade da Amazônia e publicou no Jornal do Brasil a série “O Acre de Chico Mendes”. O trabalho sobre o líder seringueiro assassinado meses antes lhe rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog. A experiência seria retomada anos depois em “Chico Mendes – Crime e Castigo”.
Poucos anos depois, foi a vez do Rio de Janeiro entrar em seu radar. Após a chacina de Vigário Geral, em 1993, Zuenir passou meses acompanhando a comunidade e tentando compreender as fronteiras sociais e a violência que dividiam a cidade. O resultado foi “Cidade Partida”, publicado em 1994 e vencedor do Prêmio Jabuti de Reportagem.
Mais do que relatar os fatos e registrar os acontecimentos, Ventura deixou claro nestes livros e em seu trabalho, como um todo, uma de suas melhores características. Como jornalista, ele queria entender tanto o cenário geral por trás dos fatos quanto as pessoas envolvidas.
Esse traço fundamental fica claro em “Minhas Histórias dos Outros”, de 2005, livro de memórias sobre personagens que encontrou ao longo da carreira, como Carlos Drummond de Andrade, Glauber Rocha e Betinho. O título talvez seja uma das melhores definições de seu próprio jornalismo.
Zuenir Ventura foi alçado à imortalidade na ABL em 2015
Em 2015, Zuenir chegou à Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 32, na sucessão de Ariano Suassuna. Já havia recebido os principais reconhecimentos de sua carreira jornalística e continuaria escrevendo, inclusive como colunista de O Globo.
Ao longo da vida, Zuenir transitou entre o jornalismo e a literatura sem abandonar a reportagem como ponto de partida. Seu trabalho não foi apenas contar o que acontecia, mas tentar explicar por que aquilo importava.
É esse possivelmente o principal legado de Zuenir Ventura: numa época em que as notícias desaparecem com velocidade cada vez maior, ele fez algumas delas permanecerem. Transformou acontecimentos em relatos, relatos em livros e livros em memória.
Aos 95 anos, deixa a mulher, Mary, os filhos Elisa e Mauro e os netos Alice e Eric. E deixa uma obra que continua funcionando como uma espécie de arquivo narrativo de um Brasil que ele passou a vida tentando compreender.
noticia por : Gazeta do Povo
