Início POLICIA Mobilizada para emergência, Guarda Nacional dos EUA completa 1 ano Washington

Mobilizada para emergência, Guarda Nacional dos EUA completa 1 ano Washington

Militares armados em estações de metrô, ruas do centro e pontos turísticos tornaram-se parte da paisagem de Washington. É comum ver integrantes da Guarda Nacional tirando fotos com turistas ou circulando pela cidade.

O que começou há um ano como mobilização anunciada pelo presidente Donald Trump para responder a uma suposta “emergência” de criminalidade virou operação de longo prazo, prevista até janeiro de 2029, mesmo diante de questionamentos sobre eficácia, custo e limites do uso das Forças Armadas na segurança pública.

A mobilização começou em 11 de agosto de 2025, quando Trump declarou a emergência e anunciou o envio de 800 integrantes da Guarda —número que depois cresceu para mais de 4.500—, apesar de dados oficiais já apontarem redução da violência antes da chegada das tropas.

De um ano para cá, houve ainda registros de guardas que foram vítimas de violência. Em novembro, dois militares foram baleados em Washington; um deles morreu depois dos ferimentos. Segundo as autoridades, o ataque foi cometido por um imigrante afegão que havia dirigido do estado de Washington até a capital.

O governo atribui à operação parte da melhora na segurança. Em balanço divulgado nesta semana, o US Marshals Service, um braço federal de aplicação da lei, afirmou que a força-tarefa, junto a agentes locais, realizou mais de 16 mil prisões, entre elas as de 35 suspeitos de homicídio e mais de 100 integrantes de gangues, além de apreender quase 2.000 armas ilegais. Lauren Bis, porta-voz da Casa Branca, afirmou que a força-tarefa “reduziu o crime” e transformou Washington de uma cidade dominada pela criminalidade em um lugar seguro para moradores e visitantes.

Uma análise do site The Trace, especializado em violência armada, mostrou que o número de baleados caiu 62% nos dois primeiros meses da operação, ante o mesmo período de 2024 —mas a queda já havia começado em meados de abril, quatro meses antes da chegada da Guarda.

Outro levantamento, do think tank progressista CAP (Center for American Progress), examinou Washington e outras cidades que receberam a Guarda e não encontrou efeito mensurável sobre crime violento, homicídios ou violência armada.

O estudo, de Chandler Hall, ressalta que a queda da violência antecede as intervenções de Trump: crimes violentos e homicídios já vinham em queda em cidades americanas em 2023 e 2024, e, em Washington, crimes violentos haviam atingido em 2024 o menor nível em três décadas. Comparando a trajetória antes e depois da mobilização, o CAP não encontrou mudança significativa atribuível à Guarda —conclusão semelhante à de análise sobre homicídios em Washington, Los Angeles e Memphis.

Outro estudo, do Niskanen Center, think tank de Washington, encontrou, porém, evidências de efeito sobre um tipo específico de criminalidade: a chegada da Guarda esteve associada a redução de cerca de 24% nos crimes patrimoniais nos primeiros seis meses, mas sem efeito mensurável sobre crimes violentos —mesmo considerando que a criminalidade já estava em queda antes da operação.

Os autores explicam essa diferença pelo posicionamento dos militares, concentrados em áreas de grande visibilidade —corredores turísticos, estações, monumentos, prédios federais— e não nos bairros de maior criminalidade: a presença ostensiva parece ter dissuadido crimes de oportunidade, mas não alterou a trajetória dos crimes violentos. Cerca de 2.000 integrantes da Guarda chegaram às ruas de uma vez, número superior ao contingente de cerca de 1.200 policiais ativos do distrito.

A eficácia limitada é contraposta ao custo. Com base em dados do Escritório de Orçamento do Congresso, o Niskanen estima em US$ 607 o custo diário de cada integrante da Guarda, ante cerca de US$ 384 por policial do distrito. Nos cinco primeiros meses, a mobilização teria custado cerca de US$ 185 milhões, e o total, segundo dados fornecidos à senadora democrata Elizabeth Warren, deve chegar a US$ 1,4 bilhão até janeiro de 2029.

A Guarda Nacional ocupa posição particular na estrutura militar: é mobilizada para auxiliar em emergências como furacões ou como força complementar em conflitos —o policiamento cotidiano de civis não está entre suas funções tradicionais.

Em evento da ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) de Washington para marcar um ano da operação, Scott Michelman, diretor jurídico da entidade, afirmou que os militares “não são agentes de segurança pública” nem recebem o mesmo treinamento para lidar com civis. O governo havia estabelecido limites para essa atuação, mas a ACLU observou expansão dessas funções ao longo do ano.

Um ano após seu início, a própria natureza da operação mudou. O que foi apresentado como resposta a uma emergência deixou de ter horizonte próximo para terminar, já que o Pentágono confirmou que a Guarda poderá permanecer até o fim do atual mandato de Trump. A extensão alimenta críticas de organizações de direitos civis, que questionam a duração e o uso de militares na segurança.

A ACLU de Washington se opõe à operação desde o início. Monica Hopkins, diretora-executiva da entidade na capital, vê uso dos militares como “instrumentos políticos” e afirma que manter a Guarda até 2029 reforça a ausência de emergência real que justifique a presença militar. Como Washington não é um estado, o governo federal tem sobre a capital poderes que não tem sobre as 50 unidades federativas —condição que, para Hopkins, a transforma em “campo de testes” para medidas antidemocráticas.

A Human Rights Watch mostra preocupação semelhante. Em agosto de 2025, classificou o envolvimento de militares na segurança civil como “perigoso e injustificado”, destacando que o governo do distrito federal não havia solicitado a intervenção.

Um ano depois, a entidade diz que a presença militar está se tornando “perigosamente normalizada” na rotina da capital: “os moradores estão acostumados a passar por grupos de militares armados no caminho para casa, para o trabalho, para o supermercado. As tropas estão por toda parte”, disse à Folha Reagan Williams, pesquisadora de crises, conflitos e armas da HRW.

Para ela, o problema também está na diferença entre a formação das Forças Armadas e a exigida para o policiamento. “O treinamento militar é focado no uso eficaz de força letal, não em um policiamento que respeite direitos”.

noticia por : UOL

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