Hollywood acaba de atingir um ponto de virada em sua aceitação da inteligência artificial.
Na terça-feira, Martin Scorsese, a personificação viva do cinema como arte elevada e uma referência moral para Hollywood contemporânea, declarou apoio a uma startup de IA especializada em geração de imagens.
Em um comunicado e em um vídeo gravado em seu escritório na cidade de Nova York, Scorsese explicou como utilizou a tecnologia da Black Forest Labs, uma empresa de IA em rápida ascensão, durante a pré-produção de seu novo filme.
“Tenho interesse na interseção entre tecnologia e narrativa, e em como isso pode expandir os limites da criatividade para criar experiências mais profundas e ricas para o público”, afirmou Scorsese, de 83 anos, no comunicado compartilhado exclusivamente com o The New York Times. “Lembrem-se: o cinema é uma mídia jovem, com apenas cerca de 125 anos, então precisamos estar abertos à forma como ele pode evoluir.”
A Black Forest Labs informou que Scorsese, indicado ao Oscar 16 vezes e vencedor da categoria de Melhor Diretor por “Os Infiltrados” em 2007, tornou-se parceiro e conselheiro da empresa no ano passado.
Quando a IA generativa se tornou amplamente acessível em 2022, a classe criativa de Hollywood mobilizou-se contra ela, enxergando-a como uma ameaça existencial. A tecnologia permite criar textos, imagens fotorrealistas e vídeos instantaneamente apenas descrevendo o que se deseja ver. A preocupação era: o que impediria os estúdios de substituir roteiristas, atores, artistas de efeitos visuais, animadores e outros profissionais por softwares?
A ansiedade foi tão intensa que a proteção contra a IA generativa tornou-se uma exigência central nas greves de 2023 que envolveram mais de 170 mil trabalhadores de Hollywood. Os estúdios passaram a tratar o tema IA como algo praticamente tóxico.
Mas a postura da indústria do entretenimento tem se suavizado de maneira notável.
Demi Moore, enquanto atuava como jurada no recente Festival de Cannes, declarou a jornalistas que lutar contra a IA “é uma batalha que vamos perder, então encontrar maneiras de trabalhar com ela é um caminho mais valioso”.
Na semana passada, o Festival de Cinema de Tribeca, criado por Robert De Niro, anunciou que exibiria um filme produzido inteiramente com IA —sem atores, cenários ou câmeras. Jane Rosenthal, importante produtora de Hollywood e cofundadora do festival, chamou o filme de “um poderoso exemplo de como tecnologias emergentes como a IA podem ser usadas não apenas como ferramentas de inovação, mas como veículos para narrativas profundamente humanas”.
No mesmo dia, o estúdio Amazon MGM revelou uma série de produções geradas por IA: três séries animadas voltadas para crianças.
E agora vem Scorsese.
“Estou extremamente animado com o fato de alguém como Martin Scorsese —um dos maiores e mais impressionantes cineastas que já existiram— estar usando nossa tecnologia e explorando suas possibilidades”, afirmou Robin Rombach, CEO da Black Forest Labs, em entrevista por Zoom. “É uma prova fantástica de que isso funciona.”
A IA generativa ainda possui críticos influentes em Hollywood. Seth Rogen e Guillermo del Toro manifestaram-se (de forma bastante enfática) contra a tecnologia durante o Festival de Cannes no mês passado. A iniciativa de séries infantis da Amazon também recebeu críticas rapidamente, levando um dos participantes a abandonar o projeto.
Scorsese recusou um pedido de entrevista. Porém, ficou claro que seu apoio à IA possui limites. Tanto o comunicado quanto o vídeo estavam relacionados exclusivamente ao storyboard, o processo de planejamento visual de um filme antes do início das filmagens.
“Há 70 anos eu crio meus próprios storyboards”, disse Scorsese. “Sempre existiu o problema de como comunicar aquilo que você vê na sua cabeça para o elenco e a equipe. Existem coisas que você precisa ver e sentir.”
Ele continuou:
“Agora, com esta ferramenta, posso compartilhar de forma mais clara e eficiente aquilo que estou visualizando com minha equipe criativa —o designer de produção, o diretor de arte e o diretor de fotografia.”
E acrescentou:
“Recentemente testei isso em uma cena, e a capacidade de visualizar e compartilhar imediatamente o storyboard foi libertadora do ponto de vista criativo. Durante a pré-produção, tempo é dinheiro, e isso nos permitiu avançar mais rapidamente sem sacrificar a qualidade ou o trabalho artístico.”
Robin Rombach, de 33 anos, cofundou a Black Forest Labs em 2024, em Freiburg, Alemanha, após trabalhar na Stability AI, startup que tem entre seus membros do conselho o cineasta vencedor do Oscar James Cameron. Rombach ajudou a desenvolver o popular gerador de imagens Stable Diffusion.
A Black Forest Labs concentra-se em modelos abertos de IA chamados FLUX, capazes de gerar imagens a partir de descrições textuais e permitir edição avançada de vídeos.
Um porta-voz de Scorsese informou que a ligação do diretor com a Black Forest Labs surgiu por meio da BroadLight Capital, investidora da startup. A BroadLight foi cofundada por Rick Yorn, empresário responsável pela carreira de Scorsese. A empresa também esteve por trás da parceria entre Matthew McConaughey e a companhia de áudio por IA ElevenLabs.
Segundo Rombach, Michael Ovitz, ex-chefe da Creative Artists Agency (CAA), também ajudou a aproximar Scorsese da startup. Investidor da Black Forest Labs, Ovitz aparece no vídeo divulgado pela empresa na terça-feira com o diretor.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
noticia por : UOL
