A política no Brasil costuma ser descrita a partir da polarização. E um recorte detalhado dos dados eleitorais mostra que a divisão entre direita e esquerda também aparece — e de forma muito acentuada — de acordo com a profissão de quem decidiu disputar as eleições em 2026.
Um levantamento com todas as 20.724 candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra diferenças expressivas entre categorias profissionais. Entre os candidatos que declararam ser professores, por exemplo, mais da metade estão filiados a partidos de esquerda, enquanto apenas um a cada 10 estão em legendas de direita. Na outra ponta estão os militares e policiais, carreiras onde há prevalência da direita sobre a esquerda.
De modo geral, e sem surpresas, partidos do centro concentram o maior número de candidatos, com quase 60% dos registros. A esquerda vem na sequência, com um quarto das candidaturas. À direita se registraram pouco mais de 16% dos nomes presentes na disputa pelos cargos de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente.
Prevalência da esquerda entre os professores
A distribuição das candidaturas dos professores é a que mais destoa da média geral. Os candidatos educadores dos ensinos Fundamental, Médio, Superior e Profissionalizante ligados a partidos como PT, PDT e PSOL, entre outros, representam 52% do total. Só entre os professores do Ensino Médio, os professores candidatos pelo PT somam mais do que os do PL, Novo e Missão juntos.
De modo geral, o PT aparece como a principal legenda individual entre os professores, com 147 candidatos, ou 15,25% do total. O PSOL vem logo depois, com 110 candidatos (11,41%).
A maior presença da direita nesta área está entre os professores de cursos profissionalizantes, onde um a cada cinco educadores são filiados a legendas conservadoras. Ainda assim, o número é menor que os 22% dos profissionais de esquerda.
Direita tem mais candidatos do que a esquerda entre as forças de Segurança Pública
A balança se inverte quando são observados os candidatos com carreiras de agentes da Segurança Pública. Entre os policiais civis e militares, as candidaturas de centro respondem à grande maioria, mas em ambas as categorias os candidatos de direita somam, no mínimo, o dobro de nomes ligados a partidos de esquerda.
Já entre os militares a presença de candidatos de partidos de esquerda é mínima. PT e PDT contam com apenas um candidato cada entre aqueles que estão na reserva – também, sem surpresas, não há neste público candidatos de partidos como PCdoB ou PSTU. Quando se olha apenas para os militares da reserva, somente o PL concentra 18 candidaturas. Entre os militares da ativa, este número sobe para 20 candidatos.
Essa diferença entre professores e agentes de segurança coloca as categorias em posições bastante distintas. Enquanto o magistério apresenta forte concentração à esquerda, militares e policiais têm participação proporcionalmente muito maior da direita — ainda que, no caso dos policiais, o centro seja amplamente majoritário, com 70% das candidaturas.
Empresários e médicos preferem centro, mas direita leva vantagem sobre esquerda
Entre os 2.600 candidatos que declararam ser empresários, o centro concentra duas a cada três candidaturas. A direita aparece com 21% contra 11% da esquerda. Nessa categoria, a principal legenda individual é o PL, com 272 candidatos (10,46%, quase o total de toda a esquerda somada). O PT registra apenas 47 candidatos, menos de 2%.
O mesmo padrão aparece entre os médicos. Dos 564 candidatos da categoria, 65,07% estão no centro. A direita reúne uma parcela maior do que a esquerda, com o PL concentrando 10,46% dos médicos candidatos enquanto o PT reúne menos da metade desse índice.
Comerciantes do PCO, agricultores de esquerda
Um dos achados mais curiosos deste levantamento é que há entre os candidatos que se registraram como comerciantes cinco nomes filiados ao PCO, legenda de extrema esquerda. Famoso pelo bordão “quem bate cartão não vota em patrão”, o Partido da Causa Operária será representado por comerciantes no Acre, Ceará, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo.
Por outro lado, o número de candidatos do PT que se registraram como agricultores é maior do que aqueles filiados ao PL, 28 contra 18. Neste recorte, como na média geral, o centro detém a maioria das candidaturas, mas a direita (17%) acaba ficando com apenas metade dos nomes ligados à esquerda (34%).
Outra categoria com prevalência da esquerda é a dos candidatos jornalistas. Nesse grupo, PT, Psol, PDT e afins representam 28,13% das candidaturas, enquanto a direita responde por 15,06%. O centro, novamente, ocupa a maior parcela com 56% das candidaturas.
A diferença é menor do que entre os professores, mas mantém o mesmo sentido: entre os candidatos que declararam profissões ligadas à produção e transmissão de informação, a esquerda apresenta presença proporcionalmente maior do que a direita.
Centro domina as candidaturas em geral, mas polarização é evidente
Considerando o conjunto total dos nomes registrados no TSE, o centro reúne a maioria absoluta, 58,26% dos nomes em disputa. Ainda assim, os contrastes evidentes entre as categorias profissionais e o padrão encontrado entre as carreiras mais identificadas com direita ou esquerda é suficientemente marcado para merecer atenção. A política brasileira segue polarizada no discurso, e as candidaturas mostram claramente que determinados segmentos profissionais se aproximam muito mais de um campo ideológico do que de outro.
noticia por : Gazeta do Povo
