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Leia a carta de D. Pedro I aos paulistanos após a declaração da Independência

O Brasil ainda não sabia que era independente quando D. Pedro I voltou às pressas para São Paulo após o grito às margens do Ipiranga, naquele 7 de setembro de 1822. A partir daquele momento estavam rompidos os laços com Portugal. Ainda assim, a decisão de um príncipe não bastava para transformar uma colônia em país. Era preciso convencer os brasileiros — e, sobretudo, os portugueses — de que a ruptura era definitiva.

D. Pedro chegou à cidade por volta das seis da tarde, ainda sob o impacto da proclamação. Em seu braço direito levava uma peça de ouro com uma inscrição que resumia a decisão tomada poucas horas antes: “Independência ou Morte”. A notícia já havia se espalhado na pequena São Paulo, de pouco mais de 10 mil habitantes.

A população recebeu o príncipe em festa, com o repicar dos sinos, manifestações nas ruas e um sentimento que rapidamente transformou a ruptura política em celebração pública. A noite seria de euforia. No Teatro da Ópera, D. Pedro foi recebido por aclamações e, entre hinos e manifestações patrióticas, a cidade celebrou a separação de Portugal.

O que havia começado como uma decisão tomada às margens de um riacho terminava o dia convertido em espetáculo público. Mas a festa escondia a dimensão do problema que começava naquele instante. Contam historiadores que a declaração de independência deveria ter sido feita dias depois, no Rio de Janeiro. A decisão teria sido antecipada de forma impulsiva por D. Pedro após um acesso de raiva com as notícias vindas da corte em Lisboa.

Na manhã seguinte, antes de deixar São Paulo, D. Pedro dirigiu uma proclamação aos paulistanos. O tom já não era o da comemoração. O príncipe falava em despedida, agradecia o apoio recebido e reconhecia que o novo país teria de enfrentar uma luta real para sustentar a decisão do dia anterior. A Independência não estava garantida só porque havia sido proclamada. Era o início de uma guerra política e militar pela separação. E D. Pedro sabia disso.

Leia a íntegra da carta escrita por D. Pedro I aos paulistanos após a declaração de independência de Portugal

Honrados paulistanos,

O amor que eu consagro ao Brasil em geral, e a vossa Província em particular, por ser aquela que perante mim e o mundo inteiro fez conhecer primeiro que todos o sistema maquiavélico, desorganizador e faccioso das cortes de Lisboa, me obrigou a ir entre vós fazer consolidar a fraternal união e tranquilidade, que vacilava, e era ameaçada por desorganizadores, que em breve conhecereis, fechada que seja a devassa, a que mandei proceder.

Quando eu mais que contente estava junto de vós, chegam notícias que de Lisboa os traidores da nação, os infames deputados pretendem fazer atacar ao Brasil, e tirar-lhe do seu seio seu Defensor; cumpre-me como tal tomar todas as medidas que minha imaginação me sugerir; e para que estas sejam tomadas com aquela madureza, que em tais crises se requer, sou obrigado, para servir ao meu ídolo, o Brasil, a separar-me de vós, (o que muito sinto), indo para o Rio ouvir meus conselheiros, e providenciar sobre negócios de tão alta monta.

Eu vos asseguro que cousa nenhuma me poderá ser mais sensível, do que o golpe que minha alma sofre, separando-me de meus amigos Paulistanos, a quem o Brasil, e eu devemos os bens, que gozamos, e esperamos gozar de uma Constituição liberal e judiciosa. Agora, paulistanos, só vos resta conservardes união entre vós, não só por ser esse o dever de todos os bons brasileiros, mas também por que a nossa pátria está ameaçada de sofrer uma guerra, que não só nos há de ser feita pela tropas que de Portugal forem mandadas, mas igualmente pelos seus servis partidistas e vis emissários que entre nós existem, atraiçoando-nos.

Quando as autoridades vos não administrarem aquela justiça imparcial, que delas deve ser inseparável, representai-me que eu providenciarei. A divisa do Brasil deve ser “Independência ou Morte”. Sabei que, quando trato da causa pública, não tenho amigos e validos em ocasião alguma.

Existi tranquilos: acautelai-vos dos facciosos sectários das cortes de Lisboa; e contai em toda a ocasião com o vosso Defensor Perpétuo.

Paço, em 8 de setembro de 1822.

Príncipe Regente.

noticia por : Gazeta do Povo

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