A proposta do fim da escala 6×1, em discussão no Congresso, pode encarecer imóveis e desacelerar obras no país, segundo estudo da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) divulgado nesta sexta-feira (20).
Pelos cálculos da entidade, a mudança pode elevar em até 15% o custo da mão de obra da construção civil —que emprega cerca de 3 milhões de trabalhadores formais. Hoje, o gasto total com mão de obra gira em torno de R$ 135,3 bilhões. No cenário mais oneroso, esse valor subiria para R$ 155,6 bilhões anuais.
De acordo com o levantamento da economista-chefe da Cbic, Ieda Vasconcelos, com base na Rais (Relação Anual de Informações Sociais), a remuneração média por hora subiria cerca de 10%, passando de R$ 15,01 para R$ 16,51. Na prática, o setor precisaria trabalhar menos horas com o mesmo contingente ou pagar a mais para compensar a perda.
O efeito seria mais severo nas micro e pequenas empresas, que respondem por 98,7% dos mais de 300 mil estabelecimentos do setor, e nas construções de habitação popular, como o Minha Casa Minha Vida, onde a mão de obra representa quase 60% do custo —proporção que varia entre 41% e 54% nos demais padrões.
Renato Correia, presidente da Cbic, diz que o debate sobre as mudanças na jornada de trabalho no Brasil precisa ser técnico e considerar dados como baixa a produtividade do trabalhador e falta de mão de obra —um dos gargalos da construção civil e de outros setores em diversas regiões do país.
Além dos empregos formais, a cadeia produtiva da construção civil envolve cerca de 13 milhões de pessoas, entre fornecedores de materiais, serviços, máquinas e equipamentos.
Para compensar a perda de cerca de 600 mil horas de trabalho por ano, o setor enxerga três alternativas, todas com custo econômico relevante.
A primeira seria reduzir o ritmo das obras. Nesse caso, segundo o estudo, o impacto se espalharia por toda a cadeia produtiva, com atraso na entrega de empreendimentos e menor oferta de imóveis.
A segunda alternativa seria contratar mais trabalhadores. Para manter o nível atual de atividade, seriam necessários 288 mil novos profissionais —111 mil na construção de edifícios, 98 mil em serviços especializados e 79 mil em infraestrutura. O custo adicional chegaria a R$ 13,5 bilhões por ano, já considerando encargos.
O problema, segundo o setor, é que essa solução esbarra no próprio mercado de trabalho. Em 2024, quando o debate sobre a redução de jornada de 44 horas para 40 horas ganhou fôlego, a Cbic disse que a mudança seria um desastre para o setor de construção, mais do que para qualquer outro. Isso porque, segundo Eduardo Aroeira, vice-presidente da entidade, não há mão de obra para contratar.
A terceira opção seria ampliar o uso de horas extras. Nesse caso, o custo adicional pode chegar a R$ 20,3 bilhões anuais, considerando o adicional legal de 50% e encargos trabalhistas.
Ieda diz ser fundamental que a discussão de redução de jornada ocorra com base em dados e levando em conta seus impactos econômicos e sociais.
INFLAÇÃO DA CONSTRUÇÃO PRESSIONA SETOR
A proposta chega em um momento em que a construção já opera sob alta de custos.
O INCC (Índice Nacional de Custos da Construção), da Fundação Getulio Vargas, acumulou alta de 5,81% nos 12 meses até janeiro de 2026. O principal fator foi a mão de obra, que subiu ainda mais: 8,93%. No mesmo período, o IPCA avançou 4,44%.
Em 2025, o saldo de vagas na construção foi positivo, com 87.878 novos postos criados. O salário médio de admissão no setor é de R$ 2.476,70, se mantendo acima da média nacional (R$ 2.294,62).
Neste ano, a construção civil prevê crescer 2%, interrompendo a trajetória de desaceleração de 2025. Se confirmado, o desempenho vai representar o terceiro ano consecutivo de expansão da atividade, ainda que em ritmo mais moderado do que o registrado em 2024.
Mesmo com a recuperação após a pandemia, o nível de atividade da construção ainda está 9,43% abaixo do pico de 2014.
noticia por : UOL
