“É muito estranho que as pessoas se sintam à vontade para falar de tudo, menos de Deus.”
Esse não é o tipo de declaração que se espera de um ícone do chamado “rock alternativo” dos anos 90 — um movimento marcado por temas como angústia, vazio e melancolia. Mas quem disse a frase foi o americano Billy Corgan, vocalista, guitarrista e líder do Smashing Pumpkins, uma das principais bandas daquela geração.
Nos últimos dias, Corgan viralizou nas redes ao falar abertamente sobre sua fé cristã, afirmar que crê em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador e questionar o silêncio em torno de Deus na cultura pop.
Mas, apesar da surpresa de parte do público, a postura não é incompatível com a trajetória de Corgan. Pelo contrário: ele construiu uma carreira à prova de definições óbvias e ainda hoje, aos 59 anos, continua surpreendendo.
Além de seguir à frente do Smashing Pumpkins, Billy Corgan mantém projetos paralelos na música, escreveu um livro de poesia e atua como empreendedor — é dono de uma casa de chá que também funciona como centro cultural e de uma empresa de luta livre profissional (uma espécie de versão superproduzida do antigo Telecatch).
Corgan também mantém um podcast, The Magnificent Others (“Os Outros Magníficos”), no qual recebe artistas visionários, incompreendidos e ignorados pela mídia tradicional. E foi justamente numa dessas conversas que ele criticou a covardia do meio artístico para tratar de Deus como uma crença real, sem ironia ou provocação.
A sociopatia dos artistas
O assunto surgiu no episódio do programa lançado no último dia 23, que teve como convidado Michael Sweet, vocalista do Stryper. A banda foi uma das primeiras do heavy metal a assumir uma identidade explicitamente cristã, ainda nos anos 80, e conseguiu sucesso comercial combinando sua mensagem com um som capaz de competir com outros grupos do gênero.
Billy Corgan contou que, na adolescência, ouvia ao mesmo tempo Stryper e Slayer — grupo famoso por letras e imagens violentas e satânicas. A reação geral aos dois conjuntos, no entanto, era muito diferente.
A estética sombria do Slayer era recebida como parte da rebeldia do rock, enquanto o Stryper, por falar abertamente de Cristo, causava desconfiança. Para Corgan, a cultura pop sempre pareceu mais confortável em brincar com o diabo do que em levar Deus a sério.
Ele disse achar estranho que o rock possa flertar tranquilamente com violência, drogas e imagens satânicas, mas se acanhe quando o assunto é Jesus. Segundo Corgan, esse excesso de “escuridão” tem menos a ver com o público do que com os músicos e a indústria (sempre disposta a transformar comportamentos autodestrutivos em entretenimento).
“A maioria das pessoas não vive com uma vela acesa para o diabo no porão. A maioria cresceu em uma comunidade cristã. Essa ideia de que nossas formas mais populares de música são excessivamente voltadas ao vício diz mais sobre a sociopatia dos artistas do que sobre a realidade”, afirmou.
O terceiro trilho do rock
Mas é importante esclarecer que Billy Corgan não passou por uma conversão recente. Ele já se considerava cristão nos anos 90, quando estava no auge do sucesso com o Smashing Pumpkins. O que mudou foi a disposição para declarar publicamente sua fé.
Corgan acreditava que falar de Deus poderia custar sua carreira. “Eu cheguei a dizer à [revista] Rolling Stone que Deus é o terceiro trilho do rock and roll”, ele contou, numa referência ao trilho eletrificado (e perigoso) do metrô.
Até que, de uns anos para cá, seu desejo de ser mais transparente com o público falou mais alto. “Se eu não puder ser verdadeiro sobre quem sou, por que um fã deveria acreditar em mim? Então tomei a decisão de que falaria sobre Deus na minha vida e sobre crer em Jesus como meu Senhor e Salvador. E se isso fosse me prejudicar, eu não me importaria”, afirmou.
Foi, portanto, uma longa caminhada até Billy Corgan conseguir dizer para todo mundo, sem ironia e sem medo: “Eu sou cristão”. E talvez ele tenha descoberto que não perdeu nada pelo caminho. Apenas chegou, finalmente, a si mesmo.
noticia por : Gazeta do Povo
