Início VARIEDADES Há quase 200 anos, radicais islâmicos lançaram jihad no Brasil

Há quase 200 anos, radicais islâmicos lançaram jihad no Brasil

Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, Salvador foi palco de uma das mais enigmáticas e violentas revoltas de sua história. Cerca de 600 africanos escravizados, liderados por muçulmanos, tomaram as ruas da cidade com armas artesanais, amuletos islâmicos, roupas brancas e a convicção de que travavam uma luta maior. A repressão foi rápida e brutal. Dezenas de mortos, centenas de presos, açoites públicos, deportações para outras províncias e para a África.

O episódio, que viria a ser conhecido como Levante dos Malês, é lembrado como um dos poucos momentos em que o Islã se insurgiu de maneira organizada no Brasil. Alguns historiadores veem na revolta uma simples rebelião de escravos. Mas outros, com base na liderança religiosa, nos símbolos e no discurso usados pelos combatentes, veem nele algo mais contundente: uma jihad.

República Islâmica da Bahia

Os elementos islâmicos são incontornáveis. Os combatentes usavam abadás brancos, típicos da tradição muçulmana, levavam orações escritas à mão, fragmentos do Corão, colares de contas representando os 99 nomes de Alá e códigos em árabe. Suas reuniões ocorriam em mesquitas improvisadas, em casas de oração e madraçais clandestinos, e os planos sugeriam um projeto ousado: libertar os prisioneiros malês, tomar o controle da cidade, confiscar os bens de brancos e pardos, e instaurar uma nova ordem política. Há indícios de que cogitavam, inclusive, a fundação de uma república islâmica na Bahia.

Essa hipótese ganha reforço na análise do historiador Alberto da Costa e Silva. Para ele, o Levante dos Malês reúne todos os elementos característicos de uma guerra santa: liderança religiosa, mobilização por fé e etnia, uso de símbolos corânicos e conexão direta com movimentos da jihad que ocorriam no mesmo período na África Ocidental. Um deles foi a jihad do xeque Usuman dan Fodio, que fundou o califado de Sokoto, atual Nigéria, e cujas ideias circularam entre os povos que mais tarde seriam trazidos à força para o Brasil.

A experiência vivida na África por muitos dos malês, que chegaram a Salvador após passarem por sociedades islamizadas, alimentava um imaginário político-religioso de resistência. Para Costa e Silva, a solidariedade étnica mencionada por Reis não exclui, mas reforça a ideia de uma jihad, já que muitos movimentos islâmicos aceitavam não-muçulmanos em suas fileiras, desde que compartilhassem os mesmos inimigos e objetivos.

Os historiadores que estudam o Levante dos Malês discordam sobre a importância do Islã para o movimento. João José Reis, autor do estudo mais abrangente sobre a revolta (A Rebelião Escrava no Brasil – A história do levante dos Malês em 1835), reconhece que os líderes da revolta eram todos muçulmanos, muitos deles alfabetizados em árabe e instruídos nas doutrinas corânicas. Ainda assim, Reis aponta que o levante teve a adesão de africanos de outros credos, inclusive os chamados animistas. Ele destaca que, embora o comando tenha sido “malê” — termo que designa os muçulmanos de origem iorubá, conhecidos como imalês —, a composição do grupo era africana no sentido mais amplo, reunindo diferentes etnias e culturas que compartilhavam o sofrimento imposto pela escravidão.

O que dizem os registros históricos

A leitura de que os malês queriam instaurar um governo islâmico é defendida por José Pereira da Silva, doutor em História Social. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele afirmou que a Revolta dos Malês pode ser compreendida como a primeira jihad do continente americano. Ele sustenta que os revoltosos não lutavam apenas por liberdade individual ou melhores condições, mas por uma transformação político-religiosa mais profunda. Seus objetivos incluíam a criação de uma república islâmica, a liberdade de culto muçulmano, o combate à imposição do catolicismo, o fim da escravidão e o confisco dos bens da elite branca. “A proibição das práticas religiosas gerou a jihad”, afirma o professor, citando o Corão: “Combatei, pela causa de Alá, aqueles que vos combatem”.

Há ainda indícios mais contundentes de que os malês não apenas desejavam instaurar uma nova ordem muçulmana, mas pretendiam eliminar os não-muçulmanos que resistissem a essa transformação. Segundo João José Reis, um dos revoltosos capturados revelou que o plano envolvia matar todos os brancos e pardos que não fossem malês, e que os “cristãos” estavam entre os alvos diretos. O professor José Pereira da Silva reforça essa leitura, observando que a doutrina usada pelos líderes permitia o uso da força contra os que se opunham à fé islâmica. Essa dimensão violenta do projeto religioso, voltada à imposição do Islã sobre outros grupos, é uma das marcas que aproximam o levante baiano de movimentos jihadistas radicais que surgiram no norte e oeste da África ao longo do século XIX.

Quem era o líder da jihad baiana

A figura de Ahuma, considerado o principal líder espiritual do levante, é central nesse processo. Escravizado, ele atuava como mestre religioso e era respeitado por sua autoridade teológica. Sua atuação remete à figura do maulana, título concedido a estudiosos que, em determinadas tradições, podem proclamar a guerra santa. A ação, segundo os registros, teria sido planejada em ambientes de estudo religioso, com referências explícitas à pureza islâmica, ao martírio e à necessidade de combater a repressão à fé. A escolha da data, no final do Ramadã, mês sagrado do jejum muçulmano, adiciona mais um componente religioso à insurreição.

Do ponto de vista geopolítico, o levante dialoga diretamente com os contextos africanos da época. Muitos dos participantes vieram do Golfo do Benin e de regiões vizinhas, onde movimentos reformistas islâmicos ganhavam força. O imaginário desses africanos era moldado pelo Islã e por estruturas sociais baseadas na sharia. A chegada ao Brasil, com a imposição da escravidão, intensificou o desejo de insurgência.

A repressão ao levante foi implacável: manuscritos religiosos foram destruídos, o uso do árabe passou a ser vigiado, reuniões foram proibidas e libertos muçulmanos passaram a ser tratados com crescente desconfiança.

No Brasil, o sistema escravista era sustentado por uma complexa rede social, que incluía inclusive libertos africanos que, em certos casos, chegaram a possuir seus próprios escravizados. A sociedade baiana era marcada por uma diversidade de origens, crenças e níveis de liberdade, e o levante malê reflete não apenas um conflito entre senhores e cativos, mas entre visões de mundo em colisão.

Ainda assim, nem todos os estudiosos aceitam a interpretação da revolta como jihad e o tema é complexo e é abordado a partir de diferentes perspectivas. Há quem prefira vê-la como uma insurreição africana de caráter mais político do que espiritual, ou como uma espécie de intifada, com a religião desempenhando papel simbólico, mas não central. O debate permanece aberto, e talvez deva continuar assim, pois o Levante dos Malês desafia classificações simplistas.

O certo é que nenhuma outra revolta da história do Brasil une com tanta força religião, etnia, escravidão e violência organizada. Durante poucas horas, os malês buscaram criar um governo próprio, no qual o Corão seria a lei.

Quase dois séculos depois, a Bahia ainda guarda os ecos desse episódio. E se o tempo apagou os nomes de muitos dos envolvidos, permanece o registro de que, em 1835, o Islã, trazido nos porões dos navios negreiros, levantou-se no Brasil. Foi um momento em que Salvador viu, ainda que por poucas horas, o reflexo de uma jihad em seu chão.

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noticia por : Gazeta do Povo

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