A ExxonMobil alertou que regulamentações que podem travar investimentos ameaçam comprometer uma tecnologia promissora para reciclar plástico, que enfrenta críticas por ser “greenwashing”, uma estratégia de marketing enganosa que vende a empresa como ecologicamente responsável sem ter comprovação.
A gigante do petróleo pressiona legisladores na União Europeia e nos EUA para mudar regras que, segundo ela, liberariam centenas de milhões de dólares em investimentos na chamada “reciclagem química”.
A Exxon está processando detratores por difamação, incluindo o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, que se juntou a vários grupos ambientalistas dos EUA acusando a Exxon de enganar o público ao promover a tecnologia de reciclagem como a “solução para a crise de resíduos plásticos e poluição”.
“Não toleraremos uma campanha difamatória sobre nossa tecnologia avançada de reciclagem”, afirmou Matt Crocker, presidente da empresa de soluções de produtos da Exxon.
“Acreditamos que estamos trazendo uma solução real, reciclando resíduos plásticos que não poderiam ser reciclados por métodos tradicionais.”
A reciclagem química usa calor e reações químicas para decompor resíduos plásticos em suas matérias-primas originais, que podem então ser usadas para fabricar novos plásticos virgens. Ela processa filmes flexíveis, laminados e materiais coloridos que a reciclagem tradicional —separação, limpeza e derretimento de resíduos para que possam ser remodelados— não consegue processar.
Mas a tecnologia é contestada por muitos ambientalistas, que dizem que ela usa incineração, gera poluição do ar e produz mais combustível a partir dos resíduos do que plásticos reciclados.
“É muito sobre fumaça e espelhos porque eles [Exxon] perceberam que existe um problema com os plásticos e o mundo está acordando para isso”, comentou Renée Sharp, diretora de defesa de plásticos do grupo ambientalista Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.
Analistas preveem que a reciclagem química poderia criar um mercado de US$ 120 bilhões para a indústria petroquímica nos EUA e Canadá. Se a nova tecnologia de reciclagem for implementada em escala suficientemente grande, produtores de plásticos como a Exxon afirmam que ela poderia reduzir uma crise global de resíduos plásticos que levou governos a considerar limitar a produção.
A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que o equivalente a 2.000 caminhões de lixo cheios de plástico são despejados nos oceanos, rios e lagos do mundo todos os dias, alterando habitats, afetando meios de subsistência, produção de alimentos e prejudicando a saúde das pessoas.
Negociações intergovernamentais destinadas a acordar um tratado global sobre plásticos foram encerradas em agosto sem um acordo, em meio a desacordo sobre se são necessários limites à produção ou caso as medidas para promover a reciclagem são suficientes.
Crocker disse que os plásticos têm “propriedades únicas” que não podem ser facilmente substituídas, acrescentando que a expansão de plantas de reciclagem química nos EUA e na Europa poderia ajudar a resolver o problema dos resíduos.
Em setembro, a Exxon suspendeu planos de investir 100 milhões de euros (R$ 623,02 milhões) em duas fábricas de reciclagem química na Bélgica e na Holanda, culpando as regras preliminares da UE que, segundo ela, as tornariam antieconômicas. A empresa disse que receberia apenas uma fração dos créditos pelos resíduos plásticos que recicla sob um sistema de contabilidade da UE proposto no projeto, porque planeja usar suas refinarias existentes em vez de construir novas unidades independentes.
Regras contábeis que medem a proporção de material reciclado podem alterar a rentabilidade dos projetos porque esse produto pode ser vendido a preços mais altos para clientes que desejam atingir metas de sustentabilidade. Uma diretiva da UE determina que todas as garrafas plásticas devem conter 30% de conteúdo reciclado até 2030.
Grupos ambientalistas argumentam que as regras propostas devem ser rígidas para garantir que as empresas não possam reivindicar créditos por material que é processado em combustível ou perdido durante o processo.
“Deve ficar claro que quaisquer alegações de conteúdo reciclado feitas sobre material que é processado em combustível são ilegais porque iriam contra a própria definição de reciclagem, que claramente exclui a produção de combustível de qualquer atividade de reciclagem”, afirmou Lauriane Veillard da Zero Waste Europe, que integra a aliança Rethink Plastic.
Nos EUA, a indústria petroquímica está pressionando reguladores federais para reclassificar a reciclagem química como um processo de fabricação em vez de incineração, o que aliviaria a regulamentação do setor.
Em setembro, a Exxon se reuniu com Lee Zeldin, administrador da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, em um extenso complexo de refinaria onde a empresa está investindo US$ 200 milhões para expandir sua planta de reciclagem química existente. A Exxon disse que processou 120 milhões de libras (54,3 mil toneladas) de plástico até o momento no local.
“Na EPA, acreditamos firmemente que podemos proteger o meio ambiente e fazer crescer a economia”, disse Zeldin durante um tour pela instalação, de acordo com um vídeo postado pela Exxon em seu site esta semana. “O investimento de capital parece ser extraordinário e o potencial futuro aqui parece ser ilimitado”.
A reciclagem química está no centro de uma batalha legal entre a Exxon e o estado da Califórnia, que processou a empresa no ano passado alegando que ela enganou o público por décadas ao sugerir que o plástico que produzia seria reciclado. Vários grupos ambientalistas se juntaram ao caso, que afirma que menos de 5% dos plásticos são reciclados em outro produto plástico nos EUA, mesmo que os itens sejam rotulados como recicláveis.
A Exxon respondeu processando o procurador-geral e os grupos ambientalistas por difamação, alegando que eles “se envolveram em uma campanha deliberada de difamação contra a ExxonMobil, afirmando falsamente que a tecnologia de reciclagem avançada eficaz e inovadora da ExxonMobil é uma ‘falsa promessa’ e ‘não baseada na verdade’.”
Uma porta-voz do procurador-geral disse que a alegação da ExxonMobil é “infundada” e que o magistrado está se defendendo no tribunal.
noticia por : UOL
