Os Estados Unidos haviam oferecido reduzir suas tarifas sobre aço, alumínio e automóveis e eliminar uma tarifa recentemente imposta à madeira serrada canadense antes que as negociações entre os dois países desmoronassem repentinamente, afirmou neste sábado (22) Jamieson Greer, representante comercial dos EUA.
Em entrevista ao jornal The New York Times, Greer detalhou elementos até então confidenciais e não divulgados da proposta comercial americana ao Canadá, afirmando que essas medidas teriam dado ao país o tratamento mais favorável entre todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos.
As negociações comerciais entre os dois países se deterioraram repentinamente no fim da noite de sexta-feira (21), após uma semana de conversas nas quais os negociadores pareciam confiantes na possibilidade de um acordo.
O presidente Donald Trump havia ameaçado abruptamente o Canadá, em julho, com uma tarifa de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões (R$ 103 bilhões) de suas exportações, numa tentativa de pressionar o país a fazer concessões comerciais e eliminar certas práticas consideradas injustas pelos Estados Unidos.
Essas tarifas entrariam em vigor na manhã da última quarta-feira (19). Mas, na noite anterior, Trump adiou sua aplicação para o sábado, afirmando que os países haviam chegado a um acordo, “sujeito à finalização dos documentos”.
Nos dias seguintes, porém, e sobretudo no fim da noite de sexta-feira, esse consenso se desfez. O acordo naufragou por uma série de questões que, isoladamente, poderiam parecer pequenas, mas que, em conjunto, representavam uma grande divergência em temas importantes para ambos os lados.
Greer afirmou que o governo Trump havia se comprometido a eliminar a tarifa de 10% sobre madeira de coníferas que Trump impôs no ano passado com base em um dispositivo conhecido como Seção 232.
Os Estados Unidos também haviam oferecido reduzir uma tarifa de 25% sobre automóveis, implementada por Trump no ano passado. Mas, como o Canadá tem direito a uma redução adicional quando os veículos contêm qualquer quantidade de componentes fabricados nos Estados Unidos, as tarifas automotivas poderiam cair para até 7%, segundo ele.
Os Estados Unidos também ofereceram reduzir as tarifas sobre metais, uma das principais prioridades do Canadá.
“Os Estados Unidos estavam preparados para reduzir de 50% para 25% a tarifa sobre a maior parte do aço enviado pelo Canadá aos Estados Unidos”, disse Greer. O aço ficaria sujeito ao chamado sistema de cota tarifária, no qual apenas um determinado volume de importações receberia a tarifa mais baixa.
No caso do alumínio, os Estados Unidos haviam oferecido reduzir suas tarifas de 50% para 25%, sem essa limitação de cota, afirmou Greer.
Para produtos fabricados com aço e alumínio, como tacos de golfe e latas de cerveja, os Estados Unidos ofereceram reduzir essas tarifas entre 10 e 25 pontos percentuais, com a alíquota mínima fixada em 15%.
Greer disse que os Estados Unidos também haviam oferecido suspender as tarifas de 50% que entraram em vigor na madrugada deste sábado sobre laticínios, vinhos, tacos de hóquei e outros produtos canadenses.
“Obviamente, suspenderíamos por completo as tarifas de 50% da Seção 338 que aplicaríamos a 5% das exportações canadenses”, afirmou, referindo-se às tarifas que entraram em vigor neste sábado.
O governo canadense não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre a descrição de Greer a respeito da proposta que o Canadá deixou sobre a mesa ao suspender as negociações na noite de sexta-feira.
Em um pronunciamento televisionado no início deste sábado, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, criticou duramente a proposta americana, classificando-a como um “mau acordo”. Ele acrescentou: “Não podemos aceitar o que eles ofereceram e não daremos o que eles pediram”.
Carney afirmou que o Canadá abandonou as negociações não apenas por considerar insuficiente o que estava sendo oferecido pela equipe negociadora dos Estados Unidos, mas também porque as autoridades americanas exigiam concessões que o Canadá não estava disposto a fazer.
Ele disse que o Canadá também havia concordado em atender a muitas exigências dos Estados Unidos, incluindo retirar todas as suas tarifas retaliatórias sobre aço, alumínio e automóveis americanos, além de convencer suas províncias a retomar a venda de bebidas alcoólicas americanas, proibida pela maioria delas.
Mas, segundo Carney, os Estados Unidos se recusaram a incluir determinadas isenções tarifárias para caminhões pesados. O primeiro-ministro afirmou ainda que os Estados Unidos pediram concessões que afetariam a cultura canadense e a manutenção das proteções à língua francesa, além de exigirem que o Canadá impusesse tarifas contra parceiros comerciais não americanos, sem oferecer benefícios suficientes para que o país o fizesse.
Nas etapas finais das negociações, o Canadá exigiu um tratamento tarifário mais favorável para picapes e caminhões semirreboque, além de mais exceções tarifárias para automóveis fabricados com componentes americanos e canadenses, segundo três pessoas a par das conversas.
“Em resumo, eles pediram demais e ofereceram de menos”, disse Carney sobre os Estados Unidos em seu pronunciamento deste sábado.
Na entrevista, Greer contestou essa avaliação. “São mudanças que preservariam o acesso privilegiado de que eles já dispõem e ainda o melhorariam”, afirmou.
noticia por : UOL
