Empresa petrolífera ligada a Trump prepara perfuração sem autorização na Groenlândia; entenda interesses no Ártico


    Vista aérea de montanhas cobertas de neve na região de Kulusuk, ao sul de Jameson Land, no leste da Groenlândia. A área está no centro de um projeto de exploração petrolífera conduzido por empresa ligada a aliados de Donald Trump. Foto de 5 de fevereiro de 2026
    AFP – INA FASSBENDER
    A pista do aeródromo de Nerlerit Inaat, localizada na costa de um dos muitos fiordes do mar da Groenlândia, recebe apenas alguns aviões por semana.
    Com cinco armazéns e três prédios vermelhos isolados em uma área remota do território autônomo dinamarquês, a chegada de 15 contêineres e máquinas pesadas de construção no fim de julho chamou a atenção, relata o jornalista dinamarquês Niels Anner.
    Em comunicado divulgado em 30 de julho, o governo da Groenlândia informou que o Ministério da Indústria e dos Recursos Minerais foi avisado de que a empresa White Flame Energy havia transferido equipamentos de perfuração embalados e armazenados de Tasiilaq para Nerlerit Inaat sem autorização das autoridades locais.
    Essa operação marítima pode marcar o início da exploração de petróleo na península de Jameson Land por um conglomerado empresarial voltado para interesses americanos.
    Segundo o ministério, o objetivo era desembarcar os equipamentos em Nunap Qeqqa (Jameson Land) para realizar perfurações.
    “O detentor da licença não havia obtido as permissões necessárias da autoridade competente antes de iniciar a operação”, informou o governo, acrescentando que uma advertência formal será enviada à empresa responsável.
    Agora no g1
    Licenças suspensas e alianças empresariais
    Em 2014 e 2018, a White Flame adquiriu três licenças, ainda válidas, para explorar e eventualmente produzir petróleo na região. Esses direitos ganharam valor após Nuuk suspender, em 2021, a emissão de novas licenças de exploração petrolífera.
    Três anos depois, a companhia foi comprada pela britânica 80 Mile PLC, que recentemente estabeleceu parceria com a Greenland Energy, empresa americana criada em 2025 por pessoas próximas a Donald Trump, entre elas Larry Sweet e Carol Craig.
    Esta última participa do desenvolvimento do sistema antimísseis Golden Dome, que Trump pretende instalar na Groenlândia.
    A Greenland Energy afirmou nas últimas semanas ter avançado nos preparativos para o que considera um dos maiores programas de exploração terrestre já realizados na Groenlândia em décadas.
    À frente da empresa está Robert Price, executivo do setor petrolífero que nunca escondeu suas ambições em Jameson Land. Durante visita à região em março, ele demonstrou entusiasmo diante de moradores céticos.
    “Será como os campos de petróleo das décadas de 1920, 1930 e 1940”, declarou o empresário. “A pressão e o petróleo vão saltar diante de nossos olhos.”
    Price e seus parceiros estimam que a área contenha cerca de 13 bilhões de barris de petróleo, equivalentes a aproximadamente US$ 1 trilhão ((cerca de R$ 5,4 trilhões).
    Segundo os planos da companhia, a primeira perfuração, com profundidade de 3.500 metros, deve começar em outubro. Em carta enviada aos acionistas em 6 de agosto, a Greenland Energy afirma que aguarda as autorizações antes de iniciar os preparativos logísticos.
    Trump publicou na rede Truth Social uma imagem gerada por IA mostrando seu rosto observando do céu um vilarejo groenlandês, acompanhada apenas da frase: “Hello Greenland”
    Truth Social
    ‘Olá, Groenlândia’
    A retomada do projeto em Jameson Land coincide com novas manifestações públicas de Trump sobre a Groenlândia.
    Em 1º de agosto, o presidente americano publicou na rede Truth Social uma imagem gerada por inteligência artificial mostrando seu rosto observando do céu um vilarejo groenlandês, acompanhada apenas da frase: “Hello Greenland” (“Olá, Groenlândia”).
    Um dia antes, em entrevista ao jornalista conservador Steve Gruber, Trump declarou que o território autônomo estaria sob controle dos Estados Unidos antes do fim de seu mandato, em 2029.
    Um mês antes, o apresentador e podcaster Dr. Phil, apoiador de Trump, anunciou que viajaria a Ittoqqortoormiit para produzir uma série documental sobre o projeto.
    “Estou indo para a Groenlândia para uma das expedições energéticas mais empolgantes de todos os tempos”, afirmou. Segundo ele, estará presente no momento do “primeiro golpe da perfuratriz”.
    Comunidades locais se opõem ao projeto
    Apesar das promessas de geração de empregos feitas por Robert Price em uma reunião realizada em junho, o projeto está longe de obter consenso. Em 13 de julho, manifestações ocorreram em várias localidades da ilha por iniciativa de moradores de Ittoqqortoormiit, único povoado próximo às áreas de perfuração. Eles temem impactos ambientais e a destruição de seu modo de vida tradicional.
    Em publicação na rede X, o ativista independentista Orla Joelsen reproduziu declarações de Hans Brønlund, presidente do conselho local de Ittoqqortoormiit.
    “Agora sabemos que empresas estrangeiras planejam fazer perfurações em nosso frágil quintal, Jameson Land, sem respeito pelo nosso verdadeiro futuro”, afirmou.
    “Se ocorrer um derramamento de petróleo em nossa terra coberta de gelo, não será apenas a natureza que será destruída. Nossa cultura de caça, nosso modo de vida e o futuro de Ittoqqortoormiit também serão destruídos para sempre.”
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    Fonte: G1

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