Início VARIEDADES Deputada do PSOL quer usar Lei da Ficha Limpa para barrar “homofóbicos”

Deputada do PSOL quer usar Lei da Ficha Limpa para barrar “homofóbicos”

Para promover seu novo projeto, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apostou em um banner digital dividido em dois tons. A própria Sâmia aparece ao centro, colorida e compenetrada. Nas laterais, em preto e branco, estão Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira (este último usando a peruca loira que marcou um de seus episódios mais polêmicos na Câmara).

A imagem ainda traz uma frase em letras maiúsculas: “LGBT-fóbicos não podem ser candidatos!”. 

O material divulga o Projeto de Lei Complementar (PLP) 156/2026, que pretende incluir condenados por “homotransfobia” na lista de inelegíveis da Lei da Ficha Limpa. Segundo a proposta, apresentada pela parlamentar no início do mês, quem tiver condenação confirmada por um tribunal ou decisão definitiva perde o direito de se candidatar por oito anos. 

A regra vale para crimes motivados pela “orientação sexual ou identidade de gênero da vítima”. E inclui casos de “discriminação, preconceito, hostilidade, injúria, violência e outras formas de violação de direitos”. 

Reféns da ideologia

O irônico é que, apesar de estamparem o banner, Bolsonaro e Nikolas não seriam atingidos pela medida. O projeto exige condenação criminal, e ambos só perderam processos na esfera cível (casos resolvidos apenas com pagamento de indenização, sem restrição de liberdade ou de direitos políticos). 

Ou seja: a equipe de Sâmia usou os dois ícones da direita apenas como isca para engajar o post

Mas quem dera que o maior problema do projeto fosse apenas a estratégia de marketing duvidosa. O buraco é bem mais embaixo. 

Ao usar termos vagos como “hostilidade” e “outras formas de violação de direitos”, o texto abre espaço para a insegurança jurídica — pois deixa o destino político de qualquer um refém da sensibilidade, ou da ideologia, dos juízes. Não é difícil imaginar disputas políticas e culturais chegando aos tribunais com uma pergunta simples: o quanto “hostil” alguém deve ser para ficar fora das urnas? 

Para que serve então?

Outro defeito do PLP 156/2026 é a sua redundância. Como o STF já equiparou a homotransfobia ao racismo em 2019, políticos condenados por esse motivo já podem ser barrados pela Lei da Ficha Limpa atual. 

Se a punição existe e é aplicada pelos tribunais, para que serve o projeto de Sâmia então? Em sua justificativa, ela afirma que “quem pratica ou incentiva a discriminação não pode ser premiado com a possibilidade de exercer funções públicas eletivas”. 

Ninguém é doido de defender o contrário. A controvérsia está em quem terá a palavra final para dizer onde termina a opinião e começa o crime que tira o direito de concorrer em uma eleição. No fim das contas, a proposta apenas dá ao Judiciário um vocabulário ainda mais elástico para continuar decidindo, no lugar do eleitor, quem “merece” estar no poder. 

Base problemática

Em entrevista à Gazeta do Povo, Vinicius Marins, professor de Direito, Ética e Governança da Universidade de São Paulo, disse que o projeto tem uma base problemática. “Do ponto de vista institucional, eu diria que isso é um sinal claro de deslocamento de funções entre os Poderes”, afirma. 

“Quando o Judiciário amplia, por decisão própria, o alcance de uma lei penal para abarcar condutas que o legislador não havia incluído expressamente, há uma tensão evidente com o princípio da legalidade penal”, ele explica. 

Marins ainda aponta uma contradição no PLP 156. “O projeto pode ser apresentado como forma de o Legislativo ocupar seu espaço, mas ele também pode acabar consolidando legislativamente uma construção originalmente ativista do Supremo”, diz. Ou seja: o Congresso chegaria depois para carimbar o que o STF já decidiu. 

Candidatos vão se calar

A redação aberta do projeto também preocupa o professor. “Quando a lei não estabelece fronteiras claras, quem acaba definindo essas fronteiras são os juízes. E juízes diferentes podem ter sensibilidades diferentes. Um tribunal pode ver determinada fala como crítica política legítima. Outro pode entender que houve discurso discriminatório”, afirma. 

Mas o efeito mais temido é sobre o próprio debate político. “Se o candidato não sabe com segurança se uma posição conservadora sobre família, educação, gênero ou religião será tratada como opinião política legítima ou como fala hostil, ele tende a se calar. Não porque mudou de convicção, mas porque o custo jurídico pode ser altíssimo”, diz Marins. 

A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com a assessoria da deputada Sâmia Bomfim para solicitar uma entrevista, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto. 

noticia por : Gazeta do Povo

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