As prefeituras brasileiras contrataram mais trabalhadores formais em 2025 do que a soma das empresas privadas não estatais, segundo dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego na semana passada.
O avanço das contratações municipais —principalmente de trabalhadores temporários e com salários menores— ajudou a derrubar em 2,3% a remuneração média do setor público no período, apesar do mercado de trabalho aquecido.
Só a administração pública municipal abriu 1,18 milhão de vínculos formais no ano passado, ante 1,03 milhão no conjunto das empresas privadas não estatais. No total, o emprego formal cresceu 5% em 2025, com 2,8 milhões de novas vagas.
No setor privado, a remuneração média caiu 0,3%, e na média total dos trabalhadores, caiu 0,5%. O mês de referência da Rais é dezembro de 2025.
Segundo especialistas, a redução da renda média não significa necessariamente corte generalizado de salários, mas uma mudança no perfil dos trabalhadores contratados.
Na apresentação dos dados, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que o funcionalismo federal cresceu 7,2% em 2025, enquanto o estadual avançou 10,3% e o municipal, 18,2%.
Para Joice Toyota, diretora-executiva da Motriz, organização voltada à formação de profissionais do setor público, o crescimento das contratações municipais está ligado à ampliação de atribuições das prefeituras em áreas como saúde, educação e assistência social.
Também há um movimento das prefeituras para reforçar a atuação na segurança pública com as guardas municipais. São funções que demandam mais mão de obra.
Parte relevante dessa expansão ocorreu por meio de contratos temporários, que costumam pagar salários menores do que os cargos ocupados por servidores concursados.
Segundo a Rais, os municípios contrataram 755 mil trabalhadores temporários em 2025. Foi, proporcionalmente, o tipo de vínculo que mais cresceu no ano, com alta de 68%.
Toyota afirma que esse modelo oferece mais flexibilidade para os gestores públicos, já que os processos seletivos são mais simples do que concursos. Segundo ela, em algumas cidades, o mecanismo também pode abrir espaço para uso político das contratações.
“A pessoa é alocada em qualquer função, às vezes até aleatória, mas na prática está ajudando na campanha e recebe um salário baixo”, disse.
Para Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a expansão das contratações também está ligada ao aumento de gastos públicos e transferências para estados e municípios nos últimos anos.
Ele afirma que o fim do teto de gastos e a transição para o arcabouço fiscal, aliados a um aumento do PIB após o fim da pandemia, fizeram com que os municípios contratassem mais.
Para Toyota, a tendência de contratações nas prefeituras deve continuar nos próximos anos, mas pode ser que as questões fiscais passem a ser uma restrição para que esse crescimento não seja da mesma dimensão.
Duque, que vê as contratações como uma consequência de política fiscal, diz considerar que a situação mudou, porque agora o setor público em geral se vê obrigado a segurar gastos.
MUDANÇA DE PERFIL
Além do setor público, mudanças no perfil das contratações também afetaram a renda média no mercado privado.
A diminuição da média salarial, tanto no setor público como no privado, aconteceu porque o perfil dos trabalhadores mudou, afirma Vitor Hugo Miro, que também é pesquisador do FGV Ibre. “O termômetro é que o salário diminuiu, mas por trás disso está a mudança de composição”, diz.
O crescimento mais forte do emprego formal nas regiões Norte e Nordeste também contribuiu para o resultado. Nessas regiões, onde os salários médios são menores, o número de vínculos cresceu 10,1%, mais do que o dobro da média nacional.
Outros tipos de contratação de menor remuneração também avançaram, como aprendizes, trabalhadores com jornada reduzida e contratos intermitentes, que chegaram a 539 mil vínculos ativos.
A Rais mostra ainda crescimento de 11% no número de trabalhadores de até 17 anos e aumento da participação de pessoas com 60 anos ou mais, movimento associado ao adiamento da aposentadoria ou ao retorno de aposentados ao mercado de trabalho.
Apesar da queda da remuneração média, a massa salarial cresceu em 2025 devido ao aumento do número total de trabalhadores formais.
O país encerrou o ano com quase 60 milhões de vínculos ativos, o maior estoque da série histórica da Rais.
Nelson Marconi, coordenador do curso de graduação em administração pública da FGV, afirma que outro fator que pode ter contribuído para a queda da remuneração real é a inflação.
Ele diz que essa situação de desemprego em baixa com o salário real em queda é incomum no Brasil. “Na pandemia ocorreu justamente o contrário, teve uma queda de emprego com aumento de salário médio, justamente porque os trabalhadores com menos qualificação perderam as vagas [naquela época].”
noticia por : UOL
