Início POLICIA Como Teatro Oficina relê '7 Gatinhos' para discutir a violência contra a...

Como Teatro Oficina relê '7 Gatinhos' para discutir a violência contra a mulher

Nelson Rodrigues (1912-1980) ganhou um dos seus primeiros prêmios ainda aos oito anos, durante um concurso de redação na escola. O texto, que não pôde ser lido em voz alta para os colegas, narrava um caso de traição que culminava na morte da mulher adúltera, conforme conta Ruy Castro, na biografia “Anjo Pornográfico”.

Ao longo dos anos, esse tema, assim como outras formas de violência contra mulheres, se tornaria recorrente em suas obras —antes da Lei Maria da Penha, da criação do termo feminicídio e de a tese da “legítima defesa da honra” deixar de ser aceita.

Em 1958, Nelson escreveu a peça “7 Gatinhos“, que retrata um patriarcado fragilizado, mantido por aparências. Prostituição e diversas violências comandadas por um pai de família compõem as cenas.

Mais de seis décadas depois, o coletivo Viradas da Encruza, composto por artistas do Teatro Oficina Uzyna Uzona, majoritariamente jovens, optou por inserir uma sequência de notícias recentes de feminicídio e estupro, deslocando a montagem para o presente.

No final do segundo ato da peça, a iluminação adquire um tom frio e sons estridentes tomam o espaço projetado por Lina Bo Bardi, no bairro do Bixiga. Os atores se contorcem, correm e gritam enquanto as telas exibem as manchetes.

A cena foi incluída na reestreia, em 20 de junho, sendo o único improviso em toda a encenação.

A adição mostra o contexto que não está explícito nas falas dos personagens, explica a diretora Joana Medeiros, também intérprete do patriarca Noronha.

“Quer dizer: olha o que está por debaixo do pano, como os nossos corpos não aguentam isso. Olha como, na hora que alguém vai pegar no meu corpo, eu grito, fujo”, diz Medeiros. “Olha como as televisões em qualquer padaria estão mostrando as coisas e eu finjo que não vejo, mas por dentro sei.”

Desde a estreia da montagem no Oficina, em 24 de dezembro de 2024, estima-se que, em média, 187 mulheres tenham sido estupradas por dia. Cerca de quatro foram vítimas de feminicídio, segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero.

Na peça, porém, quem morre em maioria são os homens. Foi a partir daí que a diretora Joana Medeiros viu um tema de revanche feminina no texto de Nelson, apesar das identificações do escritor com posições políticas conservadoras e de suas críticas ao feminismo de então.

As mulheres não são santas, diz Medeiros —nem na peça, nem na vida— mas também são vítimas.

Quando o coletivo entrou em contato com o texto pela primeira vez, identificou-se imediatamente. “Parece que estava na nossa boca. Falamos: É muito atual. Que loucura! É de agora para agora”, diz Medeiros.

Essa leitura não é casual, segundo o crítico literário Luís Augusto Fischer. Professor e estudioso da obra de Nelson Rodrigues, ele entende que o autor escreveu teorias sobre a sociedade brasileira.

Nelas, retratava constantemente o patriarcado e suas contradições, afirma, mesmo que não fizesse uma denúncia: “Para ele, [o patriarcado] era como o Sol, simplesmente existe”, diz Fischer sobre o escritor.

A antropóloga e professora do Museu Nacional Adriana Facina afirma que Nelson narrava o enfraquecimento do patriarcado —conceito usado por Gilberto Freyre para explicar o país— frente à modernidade.

“Ele revê essa ideia e vê que esse pai de família não existe mais. Existe enquanto uma representação e não tem mais eficácia”, afirma a autora do livro “Santos e Canalhas: uma Análise Antropológica da Obra de Nelson Rodrigues”, da editora Civilização Brasileira.

Ao mesmo tempo, diz Facina, o escritor mostrava como os homens reagiam com violência a essa ruína. “Na reação, esse sistema fica cada vez mais perverso.”

Para ela, a possibilidade de a peça relacionar o texto a questões atuais mostra uma continuidade histórica.

“A gente tem uma evolução importante das leis, mas mulheres continuam morrendo, ganhando menos que o homem, sofrendo mais violência como estupro. O dedo na ferida continua lá.”

No processo de preparação para a peça, os atores compartilharam seus próprios traumas em relação a terem sido abusados e também abusadores.

Essa é uma forma de socializar as violências, diz Bianca Terraza, que interpreta Arlete. “Quando a gente fez esse movimento de compartilhar, virou uma responsabilidade coletiva. Quando a gente fala, consegue resolver. Consegue olhar para o outro e falar: e agora, o que a gente faz?”

Esse é o movimento que eles tentam passar para a plateia. “Quando a gente pega essa dor e pincela nossa ruína pessoal, depois corre pelas galerias, o público, que já estava inserido, não tem mais como fugir. De repente, é parceiro da ruína”, diz Ana Clara Cantanhede, que faz a personagem Hilda.

Diferente do final do filme “7 Gatinhos”, de Neville d’Almeida, de 1980, que termina com as mulheres em um bordel dentro da casa, na peça do Oficina, as mulheres saem do teatro. Apenas uma fica em cena, encarando o homem morto.

As portas fecham e quem fica dentro da casa com o patriarcado ruindo é o público.

“Não é meu, não é dela, é da gente, é um problema social. A gente diz: Você vai sair daqui? Você vai fazer o quê? Porque isso também é seu”, diz Terraza.

noticia por : UOL

Sair da versão mobile