Início POLICIA Como a ultradireita na França sonha chegar ao paraíso da Presidência

Como a ultradireita na França sonha chegar ao paraíso da Presidência

Não é de hoje que a França humanista, laica e republicana serve de laboratório para a ultradireita. Para ficar na história recente, há meio século Jean-Marie Le Pen fundou a Frente Nacional (FN), partido reunindo correntes ultranacionalistas, liderado por ele até 2011.

De lá para cá, os apologetas da xenofobia, supremacia racial e tolerância zero com o crime ganharam espaço na vida francesa. Sonham chegar, mais uma vez, a um paraíso chamado Presidência.

Como Donald Trump domina a cena política global, inclusive no bullying que faz contra a Europa, tem-se a impressão de que a França vem taxiando na pista, para só decolar na campanha nacional em 2027. O governo de Emmanuel Macron tem ares de fim de festa. O primeiro-ministro da vez patina num drama fiscal insolúvel. E os postulantes ao Palácio do Eliseu, posicionados ou não, jogam recuados.

Na ultradireita, contudo, o clima segue agitado. Nesta semana terminaram as audiências na corte de apelação de Paris, onde Marine Le Pen —herdeira da frente criada pelo pai, rebatizada em 2018 como Reunião Nacional (RN)— tenta se livrar de uma condenação por desvio de fundos públicos. Ela pretende emplacar a tese do “desviei sem saber”. Sai em julho a decisão final: se confirmada a condenação anterior, detenção de quatro anos, multa milionária, cinco anos de inelegibilidade.

Só que a espera do veredicto não demove 33% do eleitorado francês da ideia de que o momento lhes é favorável. Manter Le Pen no páreo ativaria um apoiador-raiz, imune à desconfiança do mundo político sobre o que ela poderá fazer se eleita. Trump exalta a francesa, assim como Steve Bannon. Em sua verborragia, o estrategista do caos chegou a afirmar: “Só Marine quebrará a União Europeia“.

Seguindo ela inelegível, Jordan Bardella, 30, é o candidato da RN. Ele imita a ladainha do governador de São Paulo em relação a Jair Bolsonaro, de que sempre será grato e fiel a quem o pariu politicamente. Só que os institutos o mostram mais competitivo do que a parideira. Num segundo turno, contra Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, ele teria 74% dos votos. Contra Édouard Philippe, da direita, 53%.

Tudo pode mudar, porém. Hoje, parece impossível passar ao largo do seguinte fenômeno: a normalização da ultradireita na França. Há anos a sigla lepenista tenta se firmar como um partido aceitável, com foco em temas sociais e econômicos, além de exibir algum controle sobre os próprios instintos. Isso amplia a base geral, com risco de irritar quem cobra radicalismo.

O eleitor RN típico foi descrito pelo professor Félicien Faury, do Centro Nacional de Pesquisa Científica. Trata-se de cidadão dos extratos médios, fixado na ideia (falsa) de que cada emprego dado a um imigrante é um a menos para um francês, o que aprofunda o seu desencantamento com a classe política. É alguém imerso em tensão racial, com discurso islamofóbico. E, não tendo como ascender, sente pavor de vir a descer na escala social.

Le Pen ou Bardella não podem ser tão palatáveis a ponto de frustrar este eleitor. Para Faury, a normalização política da ultradireita está intimamente ligada à sua normalização social. O fato é que vai ficando menos pejorativo votar RN. Elites no poder, sejam de esquerda, centro ou direita, precisam captar o que isso significa.

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noticia por : UOL

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