Quanto maior o peso, menor a chance de contratação. O preconceito que muitas mulheres vivem na pele acaba de ser ilustrado por um estudo americano, que mostra que aquelas que usam canetas emagrecedoras têm uma probabilidade 27 pontos percentuais maior de conseguir emprego do que as que não utilizam o medicamento.
A constatação é de um trabalho acadêmico publicado pelo National Bureau of Economic Research em junho deste ano e assinado por Rebecca Diamond, professora de economia da Universidade Harvard. O estudo ainda precisa ser revisado por pares.
O cálculo foi feito com base no Understanding America Study (Estudo Compreendendo a América), um painel de dados representativos da população americana que é mantido pela Universidade do Sul da Califórnia e financiado por órgãos do governo dos Estados Unidos.
No trabalho, a pesquisadora alerta que, por seu custo elevado, os medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, acabam favorecendo mulheres de renda mais alta, elevando a desigualdade.
“Se a perda de peso médica altera a forma como as mulheres são tratadas, então o acesso desigual aos medicamentos também pode moldar quem consegue evitar as penalidades sociais e econômicas associadas ao tamanho do corpo”, diz Diamond.
Para isolar o efeito da medicação, a pesquisadora comparou mulheres de 25 a 61 anos que iniciaram o tratamento com outras de perfil socioeconômico, renda e histórico de saúde idênticos, que queriam usar as canetas, mas não haviam começado.
Entre aquelas que estavam desempregadas ou fora da força de trabalho no início do acompanhamento, a chance de inserção profissional aumentou em 27 pontos percentuais em relação às que não usaram as canetas após um ano e meio de tratamento.
Ou seja, se uma mulher que não usou as canetas tinha uma chance de 5% de ser contratada em um determinado período de tempo, a que usou passou a ter uma probabilidade de 32% de conseguir um emprego.
O padrão se repetiu no caso de relações amorosas. Para as mulheres que estavam solteiras ao iniciar a medicação, a probabilidade de se casarem ou passarem a morar com um parceiro aumentou 29 pontos percentuais após um ano e meio de uso.
Apesar disso, o emagrecimento não gerou aumentos significativos na satisfação com a vida ou saúde mental, de acordo com a pesquisa.
A economista aponta que isso afasta a possibilidade de que a recolocação profissional das mulheres tenha ocorrido por uma melhora na motivação interna, e reforça a visão de que um dos principais obstáculos para a entrada de mulheres gordas no mercado de trabalho é o padrão de beleza aceito socialmente.
“Existe um desconforto estrutural enfrentado pelas mulheres gordas, desde não haver cadeiras ou uniformes do tamanho delas até vagas que exigem determinado IMC [Índice de Massa Corporal] para contratação”, diz a jornalista Agnes Arruda, autora dos livros “O peso e a mídia: as faces da gordofobia” e “Pequeno Dicionário Antigordofóbico”.
Na avaliação de especialistas em mercado de trabalho, os dados mostram o quanto as empresas julgam as mulheres a partir de critérios estéticos, o que muitas vezes se sobrepõe a avaliações baseadas em experiência e qualificação.
“O estudo ilustra como a estética funciona como um filtro oculto e cruel no mercado de trabalho”, aponta o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence. “A aparência socialmente valorizada, longe de ser um detalhe, opera como um critério estrutural de seleção, muitas vezes mais decisivo que qualificação ou experiência.”
Para a filósofa Malu Jimenez, pesquisadora sobre gordofobia, o estudo pode sugerir perigosamente o emagrecimento como ferramenta de ascensão social. “Em vez de a gente discutir o que faz a sociedade valorizar a pessoa ser magra, a gordofobia fica intacta e a conclusão é que quem precisa mudar são as mulheres.”
Em seus estudos, ela ouviu mulheres com dificuldade de contratação pelo peso. “Elas percebem que outras pessoas com menor formação são contratadas”, diz.
Ela destaca o quanto as canetas emagrecedoras acentuam a desigualdade social, já que o seu custo é elevado —no Brasil, varia entre R$ 300 e mais de R$ 4.000 por mês, dependendo do princípio ativo, dosagem e marca. “Muitas mulheres periféricas querem usar as canetas e falam sobre como se endividam para continuar tomando o medicamento”, aponta.
Não há um estudo brasileiro específico sobre o impacto das canetas emagrecedoras sobre as contratações, mas há levantamentos que indicam o quanto o sobrepeso penaliza a vida profissional das brasileiras.
A dissertação “Maior o peso, menor o salário? O impacto da obesidade no mercado de trabalho”, do pesquisador Adriano Dutra Teixeira, da USP (Universidade de São Paulo), mostra que a obesidade está relacionada a uma redução de 3,9% a 9,1% nos salários em relação às mulheres magras que desempenham a mesma função.
A pesquisa “Por trás da aparência: Um estudo sobre mulheres e os desafios dos padrões estéticos no mercado de trabalho”, do projeto social Plano de Menina e da marca The Body Shop, mostrou que 69% das brasileiras já sentiram pressão estética no trabalho; 68% citaram o peso.
“A pesquisa traz evidências fortes de discriminação no mercado de trabalho, e ao mesmo tempo deixa claro o tamanho do efeito desses medicamentos na vida das pessoas”, afirma Lorena Hakak, professora do Programa de Pós-Graduação em economia da UFABC e presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero.
“Guardadas as devidas proporções, o impacto das canetas sobre a sociedade lembra o advento dos contraceptivos, que mudaram a forma como as mulheres interagem com os estudos e o trabalho.”
noticia por : UOL
