O Congresso brasileiro está debatendo projetos para proibir redes sociais a menores de 16 anos, seguindo o exemplo da Austrália, Portugal e outros países. O tema é preocupante porque adolescentes brasileiros usam várias vezes ao dia e todos os dias as quatro principais plataformas. Isso parece estar associado com a dificuldade de concentração nas aulas e o aumento da ocorrência de crimes digitais. Porém, o diagnóstico não sustenta o remédio proposto.
A narrativa comum é que o uso de redes sociais provoca problemas reais, o que é verdade. No Reino Unido, um estudo com 11 mil adolescentes correlacionou tempo em redes a sintomas depressivos, com efeito mais forte entre meninas. Na Coreia do Sul, análises mostram que mais tempo de tela aumenta problemas de saúde mental e ideação suicida.
Por outro lado, na média geral, esse efeito parece ser pequeno e heterogêneo, concentrado no uso intenso da internet, maior em meninas e em contextos de baixa renda. Outros fatores pesam tanto ou mais em prejudicar os adolescentes, por exemplo, a saúde mental dos adultos responsáveis e as crises familiares.
Há bastante evidência sobre o incentivo que as plataformas têm para oferecer produtos cada vez mais agressivos para prender atenção, e os adolescentes são as principais vítimas. Documentos internos vazados em 2021 mostraram que uma grande empresa expandiu deliberadamente um algoritmo de engajamento mesmo sabendo que piorava a relação de adolescentes com o próprio corpo. Recentemente, júris americanos reconheceram e responsabilizaram duas plataformas por design deliberadamente viciante, com indenizações de dezenas de milhões de dólares.
Porém, mesmo depois do banimento na Austrália, mais de 85% dos menores de 16 seguem acessando plataformas banidas, com conta falsa ou navegador anônimo. O Reino Unido já multou empresas em milhões de libras por falha na verificação de idade, mas mesmo lá 72% das crianças de 8 a 12 anos ainda acessam serviços com idade mínima de 13 anos. No Brasil, o ECA Digital prevê princípios parecidos, mas a fiscalização plena só chega em 2027, e o órgão responsável aplicou uma única multa em toda sua história.
Já a proibição de celular nas escolas tem mostrado bons resultados. Um estudo da Universidade de Stanford mostra que, no Rio de Janeiro, essa proibição elevou o aprendizado em Matemática em 25%. A diferença está na estrutura porque a escola é um ambiente controlado, com adultos para fazer cumprir a regra e nenhum interesse comercial em manter o aluno no celular.
Redes sociais operam ao contrário, sem fronteira de tempo ou espaço, com receita atrelada somente em manter o usuário engajado. Não por acaso, pesquisas mostram que o tempo reduzido na escola é compensado em casa, anulando o efeito sobre o uso diário total.
Aprovar a lei que bane redes sociais para adolescentes pode ajudar a protegê-los, mas não resolve o incentivo que produz o problema. Além do ECA digital ser bem implementado, medidas como auditoria algorítmica obrigatória e tributação corretiva têm mais chances de mudar efetivamente o comportamento nocivo das plataformas. Isso deveria ser o foco do congresso e da sociedade civil.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Danilo Leite Dalmon foi “Colosso”, de Papangu.
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noticia por : UOL
