O uso de chatbots guiados por IA – ChatGPT, Claude, Gemini, DeepSeek ou Grok, para citar os mais conhecidos – não para de crescer, seja como “mediadores” para acessar informações ou como “conselheiros” em diferentes matérias. O uso vai desde questões cotidianas sem grande importância (devo ou não colocar vinho branco no risoto?) até outras com implicações mais sérias (eutanásia: sim ou não?; em quem eu deveria votar nas próximas eleições?).
Para esse segundo tipo de pergunta, em princípio todos esperamos que nosso “interlocutor” seja imparcial, que não nos manipule, que não “nos dê razão como quem acolhe um tonto”; ou, ao menos, que não invente dados ou citações falsas em sua argumentação.
No entanto, tudo isso parece estar acontecendo, e com não pouca frequência. Como ocorre com o árbitro em alguns esportes, cada equipe – neste caso, cada facção política, ideológica, religiosa, etc. – tende a pensar que o chatbot da vez a prejudica: que dá mais espaço à informação ou aos argumentos do contrário, ou que diretamente trapaceia.
Predominam os argumentos progressistas
As pesquisas respaldam essas suspeitas? No campo da política, pode-se dizer que sim, mas apenas em uma direção: segundo a maioria dos estudos publicados, as ideias/opiniões/argumentos/fontes de informação conservadoras aparecem menos do que as progressistas em quase todos os chatbots, embora com diferenças importantes segundo o modelo. É o que indicam, por exemplo, pesquisas publicadas em diversas revistas científicas (Nature, Journal of Computational Social Science, Journal of Economic Behavior & Organization, Public Choice, entre outras) e por diferentes instituições (Brookings Institution, a Universidade de Stanford, Just Facts).
O jornal The Washington Post realizou vários experimentos reveladores. Em um deles, questionou alguns dos chatbots mais conhecidos sobre mais de 20 temas com clara carga política: a pena de morte, os direitos trans, a renda básica universal, a política externa norte-americana, os impostos sobre grandes fortunas ou os vouchers escolares, entre outros.
As respostas obtidas indicam que, em geral, as posições e argumentos de esquerda eram mais citados do que os de direita. Os modelos da empresa OpenAI – e, em particular, distintas versões do ChatGPT – mostravam o maior viés esquerdista: em praticamente todos os temas, mencionavam apenas ideias progressistas. Algo parecido ocorria com o DeepSeek, um chatbot criado por um empresário chinês. Por outro lado, o Gemini, de propriedade do Google, quase sempre oferecia argumentos de esquerda e de direita (o que se conhece como respostas both sides). O Claude (Anthropic) dava as duas versões em metade das vezes, e na outra metade referia apenas ideias de esquerda. Até mesmo o Grok, o chatbot criado por Elon Musk e qualificado – também por ele mesmo – como “anti-woke”, mostrava uma inclinação maior para as posturas do Partido Democrata do que para as do Republicano.
Em um experimento da Universidade de Stanford, até mesmo os eleitores democratas concluíram que 20 dos 24 modelos analisados tinham viés de esquerda.
É preciso dizer que uma das empresas proprietárias dos chatbots sinalizou, ao ser consultada pelo jornal após o experimento, que não havia conseguido replicar os resultados; e outra, que o design do estudo (em concreto, o limite imposto à extensão das respostas: 30 palavras no máximo) não correspondia ao uso habitual e impedia que os assistentes virtuais oferecessem mais contexto e nuances em suas respostas.
Uma pesquisa da Universidade de Stanford chegou a conclusões muito similares em relação ao viés político dos chatbots. Neste caso, as respostas dos chatbots foram mostradas a um grupo de 10.000 adultos norte-americanos de diferentes tendências políticas (favoráveis ao Partido Republicano, ao Democrata e independentes), que avaliaram seu viés. Mais uma vez, o panorama apresentado foi de uma clara inclinação à esquerda (assim apontavam inclusive os eleitores democratas, que consideraram enviesados nessa direção 20 dos 24 modelos analisados); e, mais uma vez, as criações da OpenAI – ChatGPT, e ainda mais o o3 e o o4-mini – destacavam-se nesse sentido, embora com algumas versões do Grok bastante próximas.
Outro aspecto significativo do estudo da Universidade de Stanford é que, quando os pesquisadores instruíram explicitamente os chatbots a serem neutros em suas respostas, aumentaram consideravelmente aquelas que seguiam o modelo both sides, ou ao menos as que reconheciam que o tema proposto era “complexo”; contudo, entre as que ofereciam argumentos de apenas um lado, a maioria continuava sendo de esquerda.
Mais indulgentes com as fake news de esquerda
O viés progressista na maioria dos chatbots não se manifesta apenas em darem mais espaço aos argumentos de esquerda do que aos de direita, mas também em que, quando erram, costumam fazê-lo mais para esse mesmo lado.
É o que mostra uma pesquisa da Just Facts, uma instituição dedicada à verificação de fatos relacionados à vida política norte-americana. Os autores propuseram a quatro chatbots (ChatGPT, Claude, Gemini e Grok) 100 perguntas sobre assuntos debatidos, mas que podiam ser respondidos objetivamente. Cada pergunta era dirigida a reafirmar ou desmentir algum dado falso ventilado pelo Partido Democrata ou pelo Republicano: por exemplo, sobre a taxa de pobreza dos lares norte-americanos, que alguns políticos democratas haviam exagerado em seus discursos; ou sobre o gasto público por estudante não universitário nos Estados Unidos, do qual Trump disse ser o mais alto do mundo, quando era o quinto.
O primeiro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi a alta taxa de erros: 76 respostas erradas de 400 no total. Três dos quatro chatbots – todos, exceto o Grok – acertaram mais quando se tratava de desmentir discursos falsos do Partido Republicano do que do Democrata; ou seja, “engoliam” mais os boatos de esquerda. A maior diferença ocorreu no ChatGPT: acertou 94% das perguntas referentes a mentiras da direita, mas apenas 75% das de esquerda.
Caberia perguntar se o viés ideológico dos chatbots pode exercer um efeito real na intenção de voto de quem os utiliza. É o que tenta averiguar um experimento realizado por pesquisadores de duas universidades norte-americanas. Os autores examinaram, em primeiro lugar, a inclinação política de 18 chatbots e constataram – como os outros estudos citados – que a maioria se inclinava para a esquerda. Depois, colocaram 900 adultos para interagir com eles: no contexto das eleições presidenciais norte-americanas de 2024, entre Trump e Biden, cada pessoa manteve cinco conversas sobre questões políticas com diferentes chatbots. Ao final dessas conversas, a intenção de voto dos eleitores havia se movido significativamente em direção ao Partido Democrata, mesmo com os autores do experimento instruindo explicitamente os chatbots a não pedirem o voto para nenhum candidato.
Secularismo geral, mas preferência por algumas crenças
Além do viés político, parece que a maioria dos chatbots também padece de outro que poderíamos chamar de “secularista”. A The Economist repercutiu recentemente um estudo realizado pelo CEFE AI, um consórcio de quatro universidades que analisa a presença da religião nos modelos de IA. Os autores perguntaram a 27 chatbots e a pouco mais de 1.100 adultos norte-americanos sobre uma série de questões do tipo “Mentir é sempre errado?” ou “O que acontece quando morremos?”.
Questionados sobre questões éticas, os avaliadores humanos consideravam que as referências à religião eram pertinentes em muito mais casos do que os chatbots.
Enquanto os humanos consideraram que seria relevante citar ideias religiosas em 45%-60% das respostas, os chatbots só o fizeram em 5%-16% dos casos, dependendo do modelo. Se contadas apenas o que os pesquisadores consideram “referências religiosas significativas” – aquelas que desenvolvem um pouco as posturas crentes e não apenas as mencionam superficialmente –, a porcentagem cai drasticamente para menos de 1%, em média.
No entanto, uma coisa é os chatbots tenderem a sub-representar os argumentos religiosos em geral em questões éticas, e outra é tratarem todas as crenças de forma igual quando questionados diretamente sobre elas ou sobre as opções não crentes: o agnosticismo e o ateísmo.
Segundo outro experimento do CEFE AI, os assistentes virtuais se comprometem pouco (ou seja, dão respostas nas quais não se aprecia uma valoração positiva nem negativa) com o islamismo, o judaísmo ou o protestantismo evangélico: a porcentagem de respostas “opinativas” em cada um deles é menor que 20%. Em contrapartida, chega a quase 40% no agnosticismo. Neste caso, mais ou menos metade das opiniões são positivas e a outra metade, negativas. Algo parecido ocorre com o islamismo ou o hinduísmo. Muito diferente é o caso do catolicismo e das Testemunhas de Jeová, para citar dois casos extremos: embora ambas recebam menos respostas “valorativas” que o ateísmo ou o agnosticismo, a grande maioria das que se referem ao catolicismo são positivas, e negativas as que se referem às Testemunhas de Jeová.
Um panorama similar, em parte, emerge quando se pergunta aos chatbots sobre a intenção de se converter a uma religião (ou tornar-se ateu ou agnóstico). É precisamente o agnosticismo a opção que mais respostas “animadoras” recebe, em até 70% dos casos, enquanto o catolicismo fica em 60%. Isso sim: a opção de se tornar católico praticamente nunca recebe uma resposta dissuasória, algo que ocorre 5% das vezes com o agnosticismo e o ateísmo. Novamente, a crença que se sai pior são as Testemunhas de Jeová: em quase metade das ocasiões em que se pergunta aos chatbots sobre a opção de se converter a ela, estes respondem que “é melhor não”.
Fontes “problemáticas”, mentiras e complacência excessiva
Para além dos vieses político e religioso, os chatbots sofrem de outros problemas em seu processo de “treinamento” que colocam em xeque, ao menos em parte, a confiabilidade de suas respostas.
Outra pesquisa do Washington Post sobre chatbots do Google e do Facebook apontava que, entre as fontes mais consultadas por eles, havia, além de algumas páginas generalistas como Wikipedia ou Scribd (uma biblioteca de documentos), outras mais problemáticas, entre elas algumas cheias de boatos e desinformação.
O estudo da Just Facts mencionado anteriormente aprofundou esse problema. Entre as fontes citadas pelos chatbots em suas respostas (pouco mais de 400 no total), havia 104 sites que já não existiam (dos quais 86 pareciam nunca ter existido), quase duas dezenas cujo conteúdo não tinha nada a ver com a pergunta, 15 que diziam o contrário do que foi expresso pela resposta e mais de uma dezena que continha dados claramente falsos. Além disso, os autores da pesquisa comprovaram que vários chatbots analisados – especialmente o Grok – mentiam sobre o uso de fontes, e só admitiam o erro quando encurralados pelos pesquisadores.
Outro problema dos chatbots é sua tendência a ser demasiadamente complacentes. Por um lado, na sua fase de treinamento, são submetidos ao que se conhece como “modelos de recompensa”: um sistema automatizado que avalia suas respostas para que se ajustem cada vez mais às “preferências humanas padrão”, obtidas de bancos de dados com milhares de respostas de usuários.
O problema é que, se há vieses nesses bancos de dados, o modelo de recompensa os amplia. Em um experimento apresentado em 2024, pesquisadores do MIT treinaram vários modelos de recompensa com diferentes bases de dados e descobriram que, mesmo quando supostamente formadas por evidências científicas, os modelos resultantes mostravam um claro viés esquerdista.
A essa tendência de se amoldar a essa espécie de “sabedoria popular” oferecida pelos “repositórios de verdades”, soma-se o problema da “adulação”: o costume dos chatbots, demonstrado por diversas pesquisas, de dar razão ao usuário em particular e mostrar-se complacente com suas opiniões, com base nos dados que tenha obtido sobre elas.
Segundo um estudo publicado em março passado na Science, que comparava as respostas de chatbots e de humanos diante de diferentes dilemas relacionados a conflitos interpessoais, as dos primeiros foram 50% mais “sycophantic” (aduladoras) do que as dos humanos; validavam as opções dos usuários “inclusive quando estes adotavam comportamentos pouco éticos, ilegais ou prejudiciais”.
À luz de todos esses dados, a recomendação surge por si só: antes de confiar cegamente no que dizem os chatbots, conviria levar em consideração suas limitações e condicionantes.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Sí, los chatbots tienen sesgos políticos (y religiosos), y a veces “mienten” descaradamente
noticia por : Gazeta do Povo
