O coletivo “Judias e Judeus pela Democracia-SP (JJPD-SP)” optou (novamente) por apoiar Lula na disputa presidencial. A manifestação veio em uma petição pública que citou desde receios com “a frágil democracia que construímos no Brasil” até preocupações com os direitos humanos. No entanto, no documento, os militantes ignoraram o real problema que assola os judeus brasileiros: o avanço do antissemitismo no Brasil.
E esse silêncio não parece ser por acaso: segundo especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, discursos do presidente e posicionamentos do Itamaraty abriram margem para uma campanha extremada contra judeus brasileiros protagonizada por figuras de extrema-esquerda, sobretudo após 7 de outubro de 2023, quando terroristas palestinos invadiram Israel por céu, terra e mar e assassinaram mais de 1.200 pessoas.
Entre as principais declarações e ações que marcaram negativamente a gestão do petista com a comunidade judaica estão a comparação feita por Lula entre a ofensiva israelense na Faixa de Gaza e o extermínio de judeus no Holocausto, a classificação das denúncias de antissemitismo como “vitimismo” e a falta de esforços do governo pela libertação do refém brasileiro Michel Nisembaum, além da retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), entidade intergovernamental dedicada à preservação da memória do Holocausto e ao combate ao antissemitismo.
Embora coletivos judaicos de esquerda pareçam fechar os olhos, líderes da comunidade judaica vêm denunciando, ao longo dos últimos anos, os impactos causados pelas declarações e ações do presidente, que, em última medida, apontam para a legitimação do ódio aos judeus no país.
A Confederação Israelita do Brasil (Conib), instituição representativa da comunidade judaica nacional, classificou, em mais de uma oportunidade, as declarações de Lula como “antissemitas” e já afirmou que posturas do mandatário “provocam um aumento imediato de ataques contra os judeus”.
Segundo dados da própria instituição, entre 2022 e 2024, os casos de antissemitismo cresceram 350% no país, tendo seu maior maior pico registrado logo após os atentados do Hamas em Israel. Em outro levantamento da instituição, realizado com 1.427 judeus brasileiros, 86% disseram considerar o antissemitismo um problema no país, e 22% já declararam ter deixado de se identificar como judeus em alguma situação.
Diante disso, uma dúvida legítima vem à cabeça: o que motiva grupos judaicos a apoiarem um presidente reiteradamente criticado por órgãos nacionais e internacionais por declarações consideradas antissemitas e que vão muito além de discordâncias legítimas com o atual governo israelense?
Para o rabino e professor Mincha Gamerman, “essas pessoas têm a falsa impressão de que, pelo fato de o povo judeu ter sido sempre oprimido, sempre uma minoria e sempre ter sofrido preconceitos, elas precisam fazer o mesmo em prol de outras minorias. Elas tentam fazer essa analogia, essa aproximação, mas ela não se sustenta”.
Ele diz que, sob a justificativa de apoiar grupos considerados oprimidos, esses coletivos acabam por se aproximar de correntes hostis ao próprio povo judeu e aos valores progressistas que afirmam defender.
“Hoje, vemos claramente um grupo de pessoas que quer a destruição de Israel. Estar com elas é defender a destruição do judaísmo e do povo judeu, e essas pessoas [de coletivos judaicos de esquerda] não enxergam isso. Elas se autossabotam e se autoenganam, acreditando que falam em nome da democracia, quando, no fundo, estão falando em nome do extremismo”.
No mesmo sentido, Juliana Katz, graduada em filosofia, judia e coordenadora de delegações do Ministério das Relações Exteriores de Israel, também aponta que é “compreensível que muitos judeus tenham uma sensibilidade particular em relação à defesa de outras minorias e grupos vulneráveis”, mas reconhece que “como um grupo que se apresenta como representante da comunidade judaica, me parece indispensável que sejam reconhecidas críticas legítimas à política externa de Lula”.
“Quando um político faz uma comparação com o Holocausto ou adota uma retórica que muitos judeus consideram ofensiva e perigosa, quem o apoia precisa explicar por que considera esse apoio necessário apesar disso. A crítica não pode ser apenas formal; ela precisa ter consequências políticas”, afirma Katz.
Entidade definiu Lula como um defensor da “humanidade e da paz”
No debate público nacional e internacional, o coletivo Judias e Judeus pela Democracia-SP mergulhou nos mais variados assuntos: fez uma defesa estrita do Supremo Tribunal Federal (STF) durante o julgamento da suposta trama golpista, condenou a megaoperação policial no Rio de Janeiro em outubro do ano passado, posicionou-se a favor do reconhecimento da Palestina e apoiou a decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) de emitir um mandado de prisão internacional contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em 2024.
A entidade, que afirma atuar em defesa dos judeus, parece instrumentalizar essa pauta apenas para defender Lula. Em uma de suas manifestações em defesa do presidente, o grupo definiu o petista como um defensor da “justiça, da democracia, da humanidade e da paz”.
Mas, na prática, o mandatário mantém proximidade com pessoas e organizações cujas posições contrariam esses princípios. Uma delas é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que classificou os ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 como “brava resistência”.
Seu governo também manteve relações com figuras extremistas, como Sayid Tenório, militante comunista que chegou a ser recebido por órgãos ministeriais mesmo após zombar de uma vítima do Hamas. Na ocasião, diante da imagem de uma refém judia amarrada e com manchas de sangue na altura das nádegas, Tenório havia debochado: “Isso é marca de merda. Se achou nas calças.”
No entorno do Partido dos Trabalhadores, José Genoino, um dos fundadores e ex-presidente da sigla, defendeu o “boicote à empresa de judeus”, em janeiro do ano passado. Um mês após a fala na internet, a Justiça deu 48h para a retirada do vídeo.
Hoje, Genoino é afagado pelo presidente Lula, que, em agosto do ano passado, defendeu que o ex-deputado federal voltasse a integrar a direção nacional do PT.
Em casos como esses, a associação judaica de esquerda evita se pronunciar e parece renunciar à defesa da comunidade que diz representar.
Ao analisar posturas de conivência com discursos e condutas hostis à comunidade judaica, Katz alerta para a “cegueira ideológica”.
“O que é de se esperar de qualquer judeu — de esquerda, de direita ou de qualquer outra posição — é capacidade de reconhecer antissemitismo quando ele aparece, condenar o terrorismo do Hamas, honrar a memória do Holocausto e, ao mesmo tempo, conseguir olhar criticamente para as ações do governo israelense e para a situação dos palestinos”.
“Coerência não é defender sempre o mesmo lado. É aplicar os mesmos princípios mesmo quando isso é desconfortável para o lado que você apoia”, diz.
JJPD defendeu Lula após crítica nos principais jornais do país
Embora evite comentar as declarações polêmicas do presidente Lula sobre a comunidade judaica, o coletivo Judias e Judeus pela Democracia faz questão de defendê-lo com firmeza diante de acusações de antissemitismo.
Em uma publicação em outubro do ano passado, o grupo judaico de esquerda chegou a contestar críticas divulgadas pelos principais jornais brasileiros e repercutidas pela Gazeta do Povo, segundo as quais o presidente Lula não teria recebido sobreviventes e familiares das vítimas brasileiras dos ataques do Hamas, teria se recusado a classificar o grupo como terrorista e permanecido inerte diante do avanço do antissemitismo no país.
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Na ocasião, para relembrar os dois anos do ataque terrorista do Hamas, em outubro do ano passado, a entidade de educação sobre Israel StandWithUs Brasil publicou nos principais jornais do país, incluindo a Folha de São Paulo, o Estadão e O Globo uma advertência direcionada ao governo brasileiro.
“Dois anos sem que o Presidente Lula recebesse os brasileiros sobreviventes do massacre do Hamas. Dois anos sem o presidente se encontrar com os familiares dos brasileiros assassinados pelo grupo terrorista. Dois anos sem Lula denominar o Hamas como organização terrorista. Dois anos em que o presidente fala sobre a comunidade judaica, mas não dialoga com ela. Dois anos em que assistimos ao aumento do antissemitismo no Brasil sem nenhuma ação efetiva do governo”, sinalizou a StandWithUs.
Como forma de protesto, os judeus de esquerda apontaram que tais acusações teriam o objetivo de “espalhar notícias falsas, fragmentar o debate e atacar o presidente Lula, de olho nas eleições de 2026” e que a entidade responsável pelas críticas, na verdade, “contribuía para a polarização e o ódio”.
Judeus de esquerda também já abraçaram Boulos e Haddad
Embora o apoio de coletivos judaicos de esquerda a Lula neste pleito eleitoral chame a atenção, especialmente após a crise histórica com Israel, esse fenômeno não é inédito. Em 2018, o grupo Judeus Pela Democracia (coletivo distinto de Judias e Judeus pela Democracia-SP, apesar da semelhança entre os nomes) se reuniu com Fernando Haddad às vésperas do segundo turno da eleição presidencial daquele ano.
Na ocasião, os militantes apontavam que Bolsonaro havia “sequestrado” a bandeira de Israel e que apoiar Haddad significava lutar “para que todo ser humano tenha dignidade e, acima de tudo, seus direitos respeitados”.
Quatro anos depois, a associação apoiou Lula no pleito de 2022 também com o discurso de “defesa da democracia”, mas, durante o mandato do petista, reconheceu suas “falas absurdas”.
“Apoiamos Lula contra [Jair] Bolsonaro justamente porque acreditamos que Lula, por seu histórico humanista, defenderia todas as minorias. Dentre essas minorias estão os judeus. Nos últimos meses figuras importantes do partido do presidente já haviam dado declarações antissemitas, como Gleisi [Hoffmann] e [José] Genoíno. Esperávamos de Lula que silenciasse essas vozes, e não as reforçasse ao dizer que os judeus de hoje são os nazistas do passado. Dessa forma, Lula escancara portas ao antissemitismo”, declarou o grupo após o presidente ter comparado as ações do exército de Israel em Gaza ao genocídio de Hitler contra os judeus no Holocausto.
O preço de “fazer o ל” — letra do alfabeto hebraico que representa o L —, como o próprio grupo orgulhosamente defendia, parece ter saído caro, e o coletivo praticamente se retirou do debate público nacional.
Já o “Judias e Judeus pela Democracia-SP” continua apoiando candidatos de esquerda a todo vapor, tanto no cenário nacional quanto no estadual e municipal. Em 2024, por exemplo, a associação declarou voto em Guilherme Boulos (Psol-SP) na eleição para a prefeitura de São Paulo.
O apoio a candidatos do Psol é contestado por lideranças da comunidade judaica, principalmente em razão de quadros importantes do partido já terem adotado uma posição radical no conflito entre Israel e Palestina, defendendo a ideia de o Hamas ser uma “legítima resistência” e contestando sua classificação como organização terrorista.
Para rebater pechas de extremista, Boulos se valeu do apoio dos ditos “judeus progressistas” em sua plataforma eleitoral. Em um vídeo com o título “Judeus apoiam Boulos e Erundina”, o candidato a prefeito derrotado em 2020 e 2024 trouxe relatos de integrantes da comunidade judaica que manifestavam apoio à sua candidatura. No vídeo eleitoral, os participantes declararam “não confundir esperança de paz entre Israel e Palestina com antissemitismo” e também ressaltaram que “Boulos já afirmou ser a favor de um projeto de paz de dois Estados”.
Para o rabino Mincha, há uma estratégia por parte dos candidatos de esquerda em se utilizar de grupos de judeus para fins eleitorais. “Esses candidatos se aproveitam do apoio desses judeus. ‘Olha só: nós temos uma grande quantidade de judeus que nos apoiam, então não somos antissemitas nem pró-terroristas.’ Quando, no fundo, eles são, porque esses grupos judaicos também são.”
Com posição semelhante, Katz alerta que “um candidato ou partido pode apresentar judeus progressistas ao seu lado para demonstrar que não é antissemita, mas a existência de judeus que o apoiam não elimina a necessidade de analisar criticamente as posições desse partido”.
“Nenhum partido, de qualquer lado do espectro político, pode usar o fato de ter judeus entre seus apoiadores — sejam um ou cem mil — como uma espécie de salvo-conduto para discursos antissemitas, ofensivos ou que deslegitimem o direito do Estado judeu de existir. Enquanto judeus brasileiros, acreditamos que temos também uma responsabilidade diante das consequências políticas das nossas escolhas e posicionamentos”, conclui Katz.
noticia por : Gazeta do Povo
